segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pensando em Grego

Não adianta pensar muito.
Entre tanta trabalheira, 
e as pílulas de entretenimento, 
sobram poucos minutos para pensar.

E nada do que se pense,
será em grande novidade. Não.

Os gregos já pensaram nisso pra gente. 
Nasciam, viviam e morriam pela sabedoria.
Então o que tu,
jovem cidadão, moderno e atual,
têm a pensar de tão inédito
que nunca foi testado antes? 

Por isso que digo, não adianta pensar muito.
Em frente as encruzilhadas,
ande.

Seja inevitável.
O passado já não é o bastante, 
o futuro é o próximo passo.

Nada de filosofia
ou pensamento metafísico ,
— talvez, ás vezes sim. —
Porém, siga.

A resposta está no caminho.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Em Ciclos

 Pelas espirais áureas
orbitamos com a natureza.
Suas cores e formas
ao círculo; ao ciclo; a repetição.

Dizem alguns que a cidade
de nada tem  natural, 
mas suas construções não foram feitas
pelas mesmas leis do universo?

Naturezas artificiais.
Cavernas para morar,
supermercados são hortas para nos alimentar.

Um ciclo. Sucessão em repetição. Um circo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

13 segundos

— Próxima estação: Sé. Desembarque pelo lado esquerdo do trem — anunciou o maquinista.

O metrô se aproximava da plataforma onde a garota desceria. Pela velocidade do trem e a metragem média das plataformas das estações de São Paulo, o jovem calculou aproximadamente treze segundos até o trem parar, abrir a porta, ela sair, a porta fechar e ele seguir viagem sozinho.

Também dava tempo de segurar o braço dela e beijá-la.

13...

Eles se conheceram no próprio bar onde estavam bebendo. Um amigo em comum os apresentou e, com afinidade imediata, começaram a conversar por horas, até que ela olhou assustada para o relógio de pulso dourado, tipo Casio, e disse que precisava ir embora, senão acabaria dormindo na rua.

12...

Ele não se preocupava muito com o horário do metrô. Pelo menos não desde que se mudara para uma kitnet no centro velho de São Paulo, perto da Praça da Luz, no coração do Bom Retiro.

Dali, ele podia ir andando para qualquer canto da cidade.

11...

Naquela quarta-feira, enquanto um clássico do futebol paulista passava na TV (seu time jogava, aliás), um de seus melhores amigos comemorava mais um aniversário.

As piadas e trocadilhos sobre seus recém-completados 24 anos rolavam soltas no minúsculo bar do Paraíso, a poucos metros do Shopping Paulista.

10...

Aliás, ele nem sabia se aquele ponto realmente pertencia ao bairro do Paraíso. Aquela região era uma confusão de nomes e fronteiras: ruas com nomes de países, bairros que se misturavam... Mas isso não importava agora.

9...

A única coisa que importava era ela.

Apenas.

8...

Mesmo com a quantidade torrencial de cerveja que ambos tomaram, ele prestou atenção em tudo que ela disse.

Ela viera de alguma cidade do interior, por algum motivo importante. Morava em São Paulo havia um tempo considerável, com algumas pessoas, perto de alguma estação de uma linha qualquer do metrô.

7...

E ela era solteira.

6...

A porta do metrô se abriu, mas ela não se mexeu muito. Nem parecia que aquela era a estação em que precisava descer. Ele ficou parado, olhando para ela.

Mesmo que aquele fosse o último metrô, ele poderia descer ali e seguir andando até sua casa. O problema talvez fosse ela, já que ainda precisaria fazer baldeação para outra linha.

Mas se o beijo acontecesse naquele momento, nada impediria que ela passasse a noite em sua casa.

E o cenário só melhorava.

5...

Ela também estava afim.

Sentia o cheiro dos feromônios no ar. Bastava puxá-la para comemorar o gol.

Aliás, será que teve mais algum gol?

Em outras circunstâncias, ele ficaria na festa até todos irem embora. Mas naquela noite, depois de toda a boa conversa com ela, quando ela anunciou que precisava ir, ele prontamente se ofereceu para acompanhá-la — e, de bom grado, ela aceitou. Agora, ali estavam, se encarando.

4...

O vagão não estava cheio.

Na extremidade sul, onde estavam, ele podia ver um casal de garotas se beijando ardorosamente do outro lado. Um jovem inconsciente de bebida dormia mais ao centro do trem. Perto dos dois, um senhor de boné velho — daqueles distribuídos em eleição — segurava um celular sintonizado no jogo.

3...

Ele começou a lembrar de toda a conversa no bar e das inúmeras vezes em que poderia tê-la beijado — mas não fez nada.

A conversa era boa e fluía tão naturalmente que, às vezes, ele se pegava viajando, divagando sobre o que ela dizia e sobre o que poderia responder. Perdido em seu próprio mundo.

2...

Ela era muito comunicativa.

Enquanto ela pertencia às humanas, ele era das exatas, e seus pensamentos voavam rápidos, lógicos e certeiros.

Como sempre, muito bom na teoria.

Sabia detalhes como a velocidade do metrô e a metragem das plataformas por causa de um trabalho de faculdade que precisou apresentar sobre reformas e melhorias públicas.

Trabalho esse cuja nota ele ainda não sabia.

O metrô apitou, avisando que as portas estavam prestes a fechar.

Ela saiu do vagão e se aproximou do rosto dele. Ele fez o mesmo.

1...

— GOL! — gritou o senhor que escutava o jogo.

Não sabia que time havia marcado.

Não importava. Não agora.

0.

Ele a foi beijar a bochecha.

Ela virou os lábios.

Ficaram se olhando enquanto a porta começava a fechar. Ele a observou pelo vidro enquanto o trem voltava a se movimentar.

Viu-a se afastar sorrindo, descendo pela escada rolante.

A próxima estação já era a dele. Mas ele não estava pensando nisso.

Permaneceu ali parado, ouvindo o estalo daquele estalinho. Só aí ele sorriu.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Manhã de Outono

Tem uma coisa que todo mundo sabe, mas ninguém entende. Aquele papo sobre aproveitar as pequenas coisas da vida parece ser um grande monte de vazio sem sentido. Faz parte daquelas coisas que devem ser vividas e não explicadas.

Dizem que um bom relacionamento é feito de opostos. Ele e ela eram a prova disso. Ela era linda, e era sua. E naquele momento específico estava a resposta para todas as perguntas sobre relacionamentos das quais o garoto sempre tentava se esquivar.

Era uma manhã de sexta-feira de outono. Dizem ser a melhor época para escrever poesia. A poesia de uma manhã daquelas está escrita no sabor do café que fica no ar, na fumaça que o bule faz naquele chiado. Na abundância de luz que entra pela janela, fundindo-se com a neblina remanescente da madrugada, dando um aspecto degradê e sépia que nem nos filmes antigos. A cozinha, o centro de toda casa, estava iluminada, dando um maravilhoso bom dia às suas almas.

Ela estava com uma das suas camisetas xadrez que ele tanto gostava e uma calcinha de seda azul. Andava descalça pra lá e pra cá, pegando o pó de café da pia e passando manteiga no pão. Ela nunca foi de dar café da manhã na cama, mas o dia estava lindo, e isso inundava o coração. Coisas românticas sempre são bem-vindas, ainda mais vindo dela. Tão séria!

O amargor da noite bem dormida ainda estava na boca, mas a vontade de desencostar do batente da porta e ir escovar os dentes era completamente nula. Preferia ficar parado ali, sentindo aquele amálgama da fria brisa das árvores e o vapor com os tênues raios de sol. Uma cena a ser fotografada.

— Nossa... Você está aí desde quando? — perguntou ela, assustada ao perceber sua presença.

— Acordei há pouco... Com o cheiro de café fresquinho.

E foi aí, nesse ponto, que o garoto tentou falar para ela o que sentia naquilo tudo. Não trocaria aquela manhã por nada neste mundo.

— Déjà vu — disse ele.

— Como assim?

— Para o resto de minha vida, lembrarei.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta Suicida #47

Pelos anos aqui vividos, sei que, por meros protocolos sociais, tenho que escrever isso para demonstrar um pouco das minhas últimas considerações.

Mas, diferente de todas as outras 46 que já escrevi, desta vez vou ser diferente. Não vou falar sobre motivos, nem culpar pessoas pela minha decisão. Pelo contrário, irei apenas dar aquele adeus gostoso, como quando uma visita querida está indo embora, e você se despede, mas não quer que ela vá. Pois é.

Mas sempre pedem motivos. Quero ver minha vizinha velha dizendo:

— Você ficou sabendo? Moço bonito, jovem, com uma vida inteira pela frente...

Ou aquele conhecido da escola, comentando com preocupação:

— Eu estudei com ele... O que será que aconteceu?

Não os julgo. Sei que o inesperado e o diferente chamam atenção. Sei que não é hipocrisia. Eu realmente sou um jovem bonito com toda uma vida pela frente. Mas eu desisti. Assim como você desliga um videogame sem salvar, simplesmente porque não quer mais jogar.

Todos os pensamentos além disso são firulas sem sentido. No final, tudo vira estatística, números e dados. E, na real, é isso que importa de verdade.

Não sei ainda como será. Mas não quero atrapalhar sua viagem de metrô. Nem usar cordas, porque é algo muito forte e bruto. Também não quero usar armas brancas ou de fogo — muita sujeira. Quero algo rápido e que dê pouco trabalho para quem for limpar.

No meu funeral, não quero nada demais. Coxinha, talvez coxinha. Sempre adorei coxinha. Dizem que só quem gosta de verdade de você vai ao seu funeral. Tardia lição, mas concordo. Por isso, quero oferecer coxinhas às pessoas que forem. Como um último gesto de gratidão por terem me acompanhado até na morte.

Mas sem chororô. Quero ser lembrado. Apenas isso.

Quero ser lembrado como aquele cara engraçado, em quem você sempre podia confiar. Aquele amigo para todas as horas, que, por mais séria que fosse a situação, sempre contaria uma piada. Quem sabe, ela até viraria bordão para outras situações semelhantes. Ou não.

Quero ser lembrado como aquele cara beberrão. Pois é, eu gosto de beber. Cerveja, por favor. Quero ser lembrado como aquele cara criativo. Tive uma ideia! Quero ser lembrado como o seu melhor namorado. Quero que se arrependa de ter me feito chorar, mas também que se lembre dos momentos bons antes das crises. Quero ser lembrado como caloteiro. Acho que estou devendo uma grana por aí, mas agora estou morto e isso não importa mais. Mas, por favor, lembre-se de nunca mais emprestar dinheiro para caras como eu.

Quero ser lembrado pelos meus vídeos e textos. Massagem no ego.

Quero ser lembrado pelos inúmeros foras, tocos e bolos que me deram. Quero que se lembrem de que passei boa parte da minha infância e adolescência apaixonado por uma garota baixinha, de cabelo cacheado, que nunca quis nada comigo.

Enfim. Quero que, daqui a 50 anos ou mais, sentado em sua cadeira de balanço, relembrando o hoje, você se lembre de mim e diga:

— Onde será que anda aquele pilantra, hein?

Mas aí, cai a ficha de que estou morto. E que talvez não dê tempo de ler a carta número 48.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Re-Começar

Recomeçar significa começar de novo. Uma nova chance para algo que já aconteceu. Outra vez.

Nos últimos dias, essa palavra pesou para mim. Muitas vezes achamos que a resposta está no passado, tentamos resgatar o que foi, dar-lhe nova vida. Mas não. A resposta nunca está lá. O novo sempre é melhor. O novo nunca é desbotado.

Antes de tentar reviver algo que já acabou, é preciso se perguntar: por que acabou da primeira vez? Acredito no aprendizado e no amadurecimento, mas o que teve fim não pode simplesmente voltar. Não por orgulho, mas por lógica.

Então surge outra questão: se houve motivo para terminar, por que haveria motivo para tentar outra vez?

Sem dúvida, a esperança deixada no passado nos faz acreditar que pode ser bom de novo. Mas se o fim aconteceu, foi porque o peso do que era ruim superou o desejo de continuar.

Nos últimos dias, pensei em recomeçar. Mas talvez seja melhor apenas começar algo novo, de novo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Rascunhos

Se a rotina do papel é ser riscado,
devemos então rabiscá-lo.
Coloque nele ideias e expressões,
seu rascunho sempre será lembrado.

(re)faça e refaça,
não pode ficar parado, estagnado,
refém às ideias de outrem.
Alienado.

Deixe perfeito, fique fascinado.
Risque de novo, fique maravilhado.
Pois da folha em branco
nada será lembrado.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Melancolia

Sobre parar a alegria
e estado de não estar.
Depressivo.
Na vida, sentido não há.
Parar.
Não querer ficar.
Desistir.
Parar de ir.
Afastar.
Se esconder.
Não ter voz pra gritar.
Dor.
Ardor.
Não sentir.
Realmente parar.
Não querer.
Não saber.
Sem alegria.

Tudo isso
é melancolia.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

As Árvores do Meu Pomar

Ventos são correntes de ar,
batendo à murmurar
nas árvores do meu pomar.

Não é o vento que estou a escutar,
mas sim, as folhas raspar,
as pétalas balançar e os ramos chacoalhar.

Não é vento que estou a observar,
mas sim um fluxo verde sempre a inclinar
nas árvores do meu pomar.

Não é vento que estou a degustar,
mas as abelhas que passam e encharcam de pólen o ar.
O cheiro de paz, é onde quero estar.

Não ouço, não vejo, não sinto. 
Onde há de estar?
Vento invisível, onde há de estar?
Estão nas árvores do meu pomar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Dedos Queimados

A sensação de estar fazendo algo ilegal era terrivelmente incrível.

Nunca tinha pensado dessa maneira, mas, depois de tantos preconceitos e pensamentos negativos, olhar o crime sob uma nova perspectiva não parecia de todo ruim. Afinal, a lei já tinha errado antes, errava no presente e erraria no futuro. Não era porque algo era considerado ilegal que deixava de ser divertido.

Ele não estava sozinho. Não poderia estar.

Viajar para a praia era um dos poucos prazeres que ainda lhe restavam. Sentir o vento quente batendo em seu rosto e esquecer, por alguns minutos, seus problemas e as mazelas de um mundo deplorável. Enquanto ouvia o som das ondas se chocando contra a areia, enterrava os pés e sentia a maravilhosa sensação de desequilíbrio enquanto a terra o puxava para seu centro. Sentia-se parte de algo e, ao mesmo tempo, um estranho no ninho.

Sempre que saía de casa com sua mochila, duas mudas de roupa e material de higiene pessoal rumo ao litoral, sabia que algo de bom iria acontecer. Sempre acontecia. Da liberdade à libertinagem, mas, dessa vez, a libertação não foi apenas uma sensação.

Não sabia o nome da garota. Não queria perder tempo com inutilidades. O presente que ela lhe deu era maior do que meras convenções sociais. Conheceram-se em um luau e, mesmo passando da meia-noite, continuavam sentados na areia, ouvindo um caiçara qualquer cantar sobre a beleza daquelas praias. Ele estava certo, e não precisava de músicas para perceber isso.

Começaram a conversar e, poucos minutos depois, concordaram sobre como as selvas de pedra eram sufocantes, sugando toda a alegria e sensação de vida. A anestesia era tão grande que algumas pessoas ainda defendiam suas cidades como os melhores lugares para morar, sem perceber o mal que a falta de tato humano e a impessoalidade lhes faziam.

A possibilidade surgiu logo depois, quando ela perguntou o quão livre ele queria estar disso. Ele não queria voltar para a cidade e não podia negar nada que ela lhe pedisse. Apenas seu olhar já o fazia se sentir melhor, como o primeiro suspiro de um bebê sentindo o oxigênio invadir seus pulmões e enchê-los de vida.

Ela tirou uma caneta piloto de sua bolsinha de crochê, que devia ter sido comprada do mesmo caiçara que cantava. Retirou a tampa e segurou seu braço com delicadeza, desenhando um coração em sua pele. Nada apareceu. Com um sorriso leve e dissimulado, ela tirou também a tampa de trás da caneta e, do compartimento de tinta, puxou um pedaço de papel enrolado, contendo uma erva picada. Então, ele teve um estalo de lucidez.

Com grande destreza, ela pegou uma caixa de fósforos quase vazia e retirou um palito. Riscou na lateral e acendeu aquele fino papel enrolado.

A violência do fogo foi logo extinta, e a extremidade do cigarro ficou com um vermelho vivo lindo. Corroía ao redor e transferia seu calor para a erva ali guardada com tanto carinho. A cada tragada da garota, um pequeno barulho de ar sendo puxado e um leve estalo do papel queimando faziam aquele anel vermelho subir mais um pouco, criando cinzas. Uma fumaça densa saía: uma fina linha branca da ponta queimada e um grande chumaço de algodão virgem de seus lindos lábios.

Após algumas instruções para iniciantes, ele pegou o cigarro de suas mãos com a máxima delicadeza, segurando apenas pela ponta ainda úmeda de saliva. Olhou para ela, questionando-se se ainda dava tempo de voltar atrás para seu mundo de pensamentos amargos, amparado pelo governo. Mas aqueles profundos olhos verdes o incentivaram a tragar aquela fumaça como água. Suspirou e, de repente, sentiu a fumaça prender em sua traqueia. Quando o ar lhe faltou, soltou aquele mesmo algodão que antes ela havia soltado.

Caiu para trás na areia, vendo o infinito de estrelas no céu. Como se fosse um filme sendo exibido em câmera lenta, percebeu a lentidão de seus atos ao repassar o pequeno tubo para a garota. Viu sua mão se movendo em todos os seus quadros e frames, multiplicando-se.

A verdade surgiu diante de seus olhos, revelando o que realmente fazia sentido. Sempre fora um bom aluno de física, um pequeno entendedor do mundo. Os cálculos da ciência do movimento, a beleza do mundo real, pela primeira vez não em quantidade, mas em qualidade. O individual se juntou ao todo. E, como um caracol, o mundo e suas essências começaram a se desenrolar e fluir.

Tudo aquilo que antes parecia um problema começou a perder sentido. O quão pequeno ele era comparado ao verdadeiro todo. A patética vida superficial que levava, os protocolos sociais, os exemplos que tinha que seguir em uma sociedade baseada em futilidades e vaidades. Tudo isso o fez rir. O mundo que conhecia não existia; era apenas uma cortina de mentiras. Saber que estava em outra dimensão, vendo a verdade, fez com que risse ainda mais.

Pela primeira vez, sentiu-se parte de algo natural, não mais um estranho. Tudo estava tão perfeito que sentiu Deus, não aquele comercializado, mas aquele presente em cada coisa viva. Sentiu-se vivo e pertencente. Finalmente, ele tinha se encaixado.

A garota ainda estava ao seu lado, também deitada na areia, olhando para o infinito. Perguntou por que governantes proíbem drogas que abrem a mente, mas liberam outras que a fecham, transformando a experiência mágica da libertação em algo socialmente inadequado.

O sol já estava nascendo. Seus olhos se fechavam novamente quando percebeu que tinha que voltar para casa. Olhou para a garota, que adormecera em seus braços, pegou em sua mão e reparou que as pontas de seus dedos estavam vermelhas, levemente queimadas. Isso a fez acordar e, com os olhos ainda pesados pelo sono, disse docemente:

— Você está liberto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Desviando

Ela não queria falar com seu vizinho.

Essa repulsa não fazia muito sentido. Ele era um bom amigo; desde a infância, andavam e brincavam juntos. Mas parece que, quanto mais velho você fica, menos paciência e vontade de falar com alguém você tem.

A arte de fugir de falar com alguém deve ser algo antigo. Claro que, hoje em dia, era muito mais fácil: basta pegar o celular e fingir que está conversando ou digitando alguma mensagem, e pronto, você se livrou de falar com aquela pessoa. A garota às vezes pensava na época de seu pai, ou até antes, quando não havia celular. Provavelmente, ele usava jornal. Seu pai sempre anda com um jornal nas mãos.

Talvez seja por isso que ele tenha uma facilidade inacreditável de falar com as pessoas e, acima de tudo, de as pessoas gostarem de falar com ele. Pegar o elevador do prédio sem ele era praticamente uma tortura, e sempre aparecia alguém falando sobre o clima.

Mas aquela situação específica era complicada. A garota estava indo para o trabalho e, quando estava chegando perto da estação, avistou o vizinho. Ele não era chato nem nada, mas ela simplesmente não queria falar com ele naquele momento. Isso exigiria muita atenção e improvisação de um discurso que provavelmente ambos se enjoariam rapidamente. E falar sobre o clima era tão broxante que já fazia parte do protocolo social que esse tipo de tópico deve ser levantado apenas no elevador.

Ela sabia que estava fazendo um favor para ambos. Em plena primeira hora do amanhecer, ninguém quer falar com ninguém, e a paciência era pouca para todo mundo. Na verdade, essa convicção ia se esvaindo a cada vez que ela fazia isso com alguém. No final das contas, o que a pessoa fez de tão ruim para não receber um simples "oi"?

Tudo isso começa com aquele cumprimento frio que você dá para seu vizinho. Logo em seguida, você começa apenas acenando com a cabeça ou com as mãos, e no outro dia, vocês nem se olham mais na cara. Mas, mesmo assim, caso se encontrem em algum lugar por um tempo considerável, terão que conversar. Protocolo social.

Ela não queria pegar o celular, apesar de ser uma boa tática. Sempre era meio forçada. Ela sempre odiou quando estava falando com alguém e essa pessoa pegava o celular, começava a mexer nele e simplesmente parava de prestar atenção no que estava sendo dito. Em situações como a que está acontecendo agora, isso piora exponencialmente, no sentido de que todo mundo, um dia na sua vida, já fingiu não ver alguém, e todos sabem exatamente o que o ato de pegar o celular significa.

A cada passo, a sentença ia se aproximando, e não importa o quanto desviasse o olhar, uma hora ou outra eles iriam se encarar, e depois disso não teria mais jeito nenhum. E agora já era tarde demais para voltar no caminho ou se esconder atrás de uma moita ou uma árvore.

Ela chega à fila e tenta se esconder atrás do cara gordo que ali estava. Com sorte, seu vizinho nem ia reparar nela, e tudo continuaria com seu rumo. Tudo melhora quando seu celular toca. Além de estar escondida, ela estaria ocupada demais para falar com ele agora, e não estaria mentindo.

— Alô?

— Oi, vizinha... Tô aqui na fila do ônibus, alguns lugares na frente. Corta fila e vem aqui, faz tempo que não te vejo!

— Sério? Nem te vi... Tô indo aí.

Ela desliga o celular e anda na direção do vizinho, desanimada.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Paraíso Tropical

O homem acordou na praia.

Depois que se casou, há alguns anos, o maior sonho do jovem casal era viver em um paraíso tropical. Havaí era muito clichê, além de ter enxurradas de surfistas sarados que andariam pra cima e pra baixo com suas pranchas, o que afetaria, em alguns níveis, o seu ciúme. Não poderia esquecer as garotas de biquíni, é claro, mas ele conhecia a mulher que tinha em casa e não a trocaria pela modelo que fosse.

Existiam outros lugares que pensavam também, só que nada era um plano para hoje ou amanhã. Era o sonho para o final de suas vidas. Atualmente, ambos trabalhavam muito em grandes corporações do capitalismo imperialista, mas não gostavam de pensar assim, pois eram eles que pagavam suas contas, seu lazer e a boa vida que tinham.

Boa vida significava coisas que antes ele não tinha. Vindo de uma família humilde do interior do estado, ele tinha que dividir tudo com seus outros três irmãos. E existiam regras básicas, como na hora do jantar, quando a mãe fazia frango assado (seu prato preferido). Era sempre o pai, a mãe e os irmãos mais velhos que escolhiam os primeiros pedaços. Ele tinha cansado de comer pescoço, e a sobra das asas já não o satisfazia há muito tempo.

Começou a estudar e batalhou para chegar onde estava. Sabia que estava em um lugar de prestígio, e sua mulher também.

Conheceu-a no estágio. Depois de muito lutar, resolveu falar com ela, e ela perguntou por que ele demorou tanto tempo para chegar nela. Sua vida não era conhecida pelas grandes conquistas amorosas, e isso, na verdade, nem importava muito. Sempre foi um garoto esforçado, mesmo com seus pais não o apoiando ou dando qualquer incentivo que seus irmãos mais velhos sempre tiveram. Mas hoje ele estava lá, e seus irmãos e pais não.

Percebeu que estava com uma dor de cabeça inacreditável, mas isso deveria ser o menor de seus problemas. Naquelas circunstâncias, principalmente. A fumaça e os gritos irritavam ainda mais seus olhos e seus ouvidos. O caos que estava ali o estressava.

Pensou na esposa de novo. O que ela falaria vendo-o ali, caído na areia de terno? Apesar de irônico, sua vida perfeita de morar na praia não se parecia com nada do que ele estava vivendo ali. Na verdade, nem ele sabia o que pensar sobre isso. Sua única certeza que tinha ali era que estava com saudades de sua mulher, e que isso deveria ser recíproco.

Tinha pedido folga um dia antes da viagem para passar mais tempo com sua mulher, ainda mais porque iria pegar o avião na primeira hora do amanhecer. Passaram um dia incrível vendo clássicos do cinema, almoçando no grande jardim de sua casa, perto das flores e de frente para a grande fonte, que foi presente de aniversário de seu sogro.

Acordou 4 horas antes de sair de casa, como sempre fazia quando tinha que pegar um avião. Mas, excepcionalmente, dessa vez ele quase perdeu o avião, pois sua mulher lhe puxou para a cama de novo e fizeram amor como se não houvesse amanhã. De fato, não houve, mas ele evitava pensar nisso e pensava somente nas últimas palavras que ela tinha dito:

— Ainda não fiz o teste, mas acho que estou grávida.

Acordou com a comissária de bordo colocando uma máscara de oxigênio em seu rosto. Perguntou o que estava acontecendo, e, com a face da mentira, ela disse:

— Nada demais, senhor. Apenas rotina.

Claro que era mentira. A turbulência estava muito forte, e durante os anos em que pegou avião para viajar a trabalho, nunca tinha pegado uma turbulência tão forte e violenta daquele jeito. A alavancagem puxou a comissária para o teto do avião, e uma mala de mão caiu do bagageiro batendo exatamente na cabeça dele. Isso o fez desmaiar e não ver o resto do caos. Talvez seja por isso que sua cabeça estivesse doendo tanto.

A gritaria e o caos que reinavam na areia branca daquela praia deserta eram assustadores. O motor do avião ainda girava freneticamente, e pedaços gigantescos da fuselagem pairavam entre a areia e a água. Pessoas gritando e correndo, e a cor vermelha estava presente em todos os lugares para onde ele virava os olhos. Estava com medo e queria estar na cama com sua esposa naquele momento.

Mas o homem acordou na praia.

Sozinho.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Aquele Apelido

— Meu nome é Rodolfo, mas pode me chamar de Pringles!

Apelidos estranhos sempre fizeram a garota pensar. Ter um apelido legal é o que te diferencia de quem não tem apelidos legais ou, pior ainda, de quem não tem apelido nenhum. No fim das contas, um apelido faz parte da sua identidade, da sua história e da sua vida.

Sentada naquela cadeira de um restaurante chique qualquer da cidade, ela começou a refletir sobre sua adolescência e todos os apelidos que mais a marcaram.

Havia um garoto a quem chamavam de Suicida, porque diziam que ele havia tentado se matar algumas vezes, mas, pelo jeito que ele andava pela escola, parecia que isso não havia dado certo. Na verdade, ele nem era tão interessante assim, mas sempre atraía atenção, com medo de que ele tentasse novamente, e dessa vez conseguisse.

Também havia a Abelha. Era uma menina baixinha e gordinha, meio insuportável, que sempre estava comendo um doce e fazendo fofocas para as amiguinhas. Ela sentia saudade do Trator, apelido que ele havia ganhado depois de dormir na casa de alguns colegas.

Pensando bem, ela percebeu que não se lembrava do nome de ninguém, apenas dos apelidos. Sempre lembrava do Betão e jurava que seu nome era Roberto, ou Aberto, mas no dia da formatura descobriu que seu nome era Bruno.

— Mas por que te chamam de Pringles?

— Sei lá, sempre me chamam assim.

Nesse momento, ela sentiu o cheiro da mentira. Ninguém o chamava de Pringles, mas ele insistia nesse apelido para parecer descolado. Afinal, Rodolfo não era lá um nome muito legal.

Mas essa ideia de inventar apelido nunca fez muito sentido para ela. O apelido tem que vir de alguma característica sua, e quem deve escolher o apelido é o próprio grupo de amigos, não você mesmo.

Ela não gostava disso. Só aceitou sair com ele porque sua irmã tinha insistido muito. Tinha acabado de sair de um relacionamento e talvez conhecer novas pessoas realmente fosse bom. E, se ela não saísse com ele, sua irmã arrumaria outro, e outro, e outro. Quando falou sobre ele, ela não o chamou pelo apelido, mas pelo nome. Isso significava que ninguém além dele mesmo o chamava de PRINGLES, e isso a incomodava.

— Ele é um cara legal. Tem um emprego fixo, está ganhando muito bem, já é formado e, além disso, é um gato. Engraçado e muito ‘gente boa’, aquele tipo de pessoa com quem você gosta de estar sempre por perto... Ele tem uma simpatia que nunca vi antes. — Foi o que sua irmã disse. Ou seja, ele parecia ser um bom partido. Mas, para a garota, havia coisas que iam além do "simpático, rico e bonito".

Ela sempre quis ter seu próprio apelido. Sonhou a infância toda com alguns nomes que via em filmes ou que lia em livros, mas no final sempre acabaria com aquele apelidinho sem graça. São regras da vida, e ela não podia mudar isso. Logo, não achava justo o que ele estava fazendo.

Ela entendia que era uma forma carinhosa, mas isso dava um ar infantil ao que já era. Muitas vezes perguntavam a ela se realmente era maior de idade, pois, pelo seu tamanho e rosto de criança, parecia mais jovem. Mas, para ela, ter o diminutivo do nome como apelido era tão triste quanto não ter apelido algum. E ela não gostava disso.

— Mas e você, moça? Qual é o seu apelido?

— Eu não tenho apelido — mentiu.

— Posso te chamar pelo seu diminutivo então?

— Não.

A moça pegou suas coisas e foi embora.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Firulas sobre X-MEN 135

Aquilo realmente era engraçado.

O homem tinha uma vida tranquila. Mesmo vivendo naquela cidade desde o primeiro dia de seu nome, nunca antes tinha visto algo como aquilo.

Começou a pensar também sobre todos os seus amores, pois tinha certeza de que, após o que vivenciava ali, chegaria o fim de todas as outras histórias, e tudo antes disso seria apenas progresso.

Nas primeiras aulas que teve quando era criança, se apaixonou pela filha da professora. Já não lembrava o seu nome, mas lembrava-se perfeitamente do emaranhado de cabelos pretos que sempre ficavam na sua frente nas aulas de artes.

Alguns anos mais tarde, se apaixonou perdidamente pela vizinha, a filha do dono do bar. Foi com ela que deu seu primeiro beijo, e ali teve a certeza de que ela seria eternamente a mãe de seus filhos. Acontece que ela era alguns anos mais velha, e aqueles beijos não passaram de promessas não cumpridas.

Depois da maior decepção amorosa de sua vida, prometeu nunca mais se apaixonar. Mas isso mudou quando conheceu aquela garota da última fileira da faculdade. Mesmo após muitos "não", ele ainda insistia naquela história. O mais engraçado é que, em sua cabeça, ambos tinham uma vida de amor inteira juntos, enquanto ela provavelmente nem sabia seu nome.

Também passou à sua cabeça sua esposa. Foi quando a conheceu no seu primeiro trabalho, em um escritório qualquer de publicidade na zona nobre da cidade, que descobriu que não existe o amor. Amor não passa de reações químicas que acontecem em seu corpo, e isso é o mesmo, seja com a mulher dos seus sonhos ou comendo uma barra de chocolate.

Como já dizia seu ex-chefe naquele mesmo escritório de publicidade: "Amor é o que usamos para fazer as pessoas comprarem meias novas."

Sendo assim, o amor é muito mais fantasioso do que real. Fazia sentido falar que amava as primeiras três, mas sua esposa não. Principalmente porque ele tinha mais prazer comendo chocolate do que tendo uma noite de amor com ela.

O amor é uma coisa complicada, concluiu após seu divórcio. Sabia que qualquer dia suas irmãs iriam arranjar um encontro às cegas para ele ou que acabaria indo a algum prostíbulo imundo ali no centro da cidade para satisfação carnal imediata. Mas nunca tinha imaginado que aquilo pudesse acontecer de novo. Não depois disso tudo.

Sentado à mesa do restaurante, olhando para a rua pelo janelão do lugar, apenas enrolando nos últimos minutos de sua hora de almoço, viu, em câmera lenta, ela chegar.

Vestido preto, sem estampa, um pouco acima dos joelhos. Pele branca, tão clara quanto pode ser. Assim como seu cabelo ruivo natural dava um grande contraste com as pequenas sardinhas espalhadas pelo rosto. Seus olhos estavam longe demais para que ele pudesse ver a cor, mas imaginou que fossem azuis. No braço, uma tatuagem em forma de retângulo. Percebeu que aquilo era uma página de uma história em quadrinhos muito particular.

X-MEN 135.

Sabia exatamente que página era aquela, pois sempre leu gibis durante toda sua infância. E seu primeiro grande amor, muito antes da filha da professora ou a filha do dono do bar, se chamava Jean Grey.