terça-feira, 29 de abril de 2014

Amiga da Minha Ex Mina

A amiga da minha ex mina
também é amiga minha.
Não é a melhor, nem tanto inimiga,
mas dentre os mais criados cargos
essa lista só se amplia
e ela em nada se enfila.

Dos tempos que a ex era só mina,
da amiga me lembro bem,
e uma dúvida me assoviava:
"Tu és sabida, ou nem?"

Da amiga da minha ex mina,
de tudo, isso afirmo:
Confio! Depois de todo tempo,
Amiga ainda é! Tanto quanto antes havia.
Portanto, como consolo da última sina
tal ato a ti suplico:

Dos ditados e palavreados que a ti pertence
omita aquele que fala das borboletas que por ela sentia.
Me incrimino em saber que de dito passado, distancia dali não há,
e que ainda amo aquela que um dia chamei de mina.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Nome de Deus

– Você fuma maconha?

Pergunta a mulher sob a luz baixa do restaurante.

O jovem se assustou. Não esperava uma reação dessas vinda daquela mulher. Loira, com mechas que caíam sobre os olhos, amarrados em um coque que deixava à mostra uma nuca lisa e sensual. Vestida com um tubinho branco justo, e por baixo um corselet que poderia enlouquecer qualquer um. 

Ela era uma gostosa.

– Injeta heroína ou cheira cocaína? Fuma crack? Bebe cerveja? Pinga, martini, vinho, gim?   Refrigerante ou  Crocodil?  – pergunta provocativa – Internet ou televisão?

O homem não reage.

– Desculpa se eu fui invasiva, mas estou perguntando porque eu já usei tudo isso. - diz ao brincar com a taça.

Normalmente o homem não se misturava com uma mulher como ela, mas ela sabia se misturar no mundo dele. Conhecia aquele tipo de mulher, pois ela tinha o mesmo cheiro que suas empregadas. Não existia aquele tipo de mulher no seu convívio, mas apesar de tudo, aqueles olhos verdes ainda o intrigavam. E ele estava prestes a fazer um loucura.

– Acredita nisso? – ela continuou rindo – Eu sou uma total e incompreendida viciada em drogas. Se dá um barato, qualquer que seja, eu topo. E sabe por quê? Porque a realidade é dura demais para ser vivida não é? Olha só a porra da cidade em que moramos!

Do Terraço Itália mal dava para ouvir os gritos de socorro dos mendigos e viciados lá embaixo. Ali de cima eles eram diferente. Ali, eles estavam fazendo outra coisa.

– Precisamos fugir às vezes. Alguns fogem mais do que outros, mas a questão não é essa. A questão está na procura. Todo mundo quer achar o método definitivo de fuga, e é exatamente por isso que estamos aqui hoje...  – ela pausou levemente, e com um olhar malicioso, e concluiu – Nós achamos.


Ele riu com a audácia dela. Ele não conseguia mais esconder o interesse que crescia dentro dele. Ela é bonita, com certeza, mas mulheres bonitas são fáceis de manipular. No fim das contas, todas elas sabem onde é o lugar delas. Mas agora a curiosidade, tinha virado atenção, fazendo ambos dançar em um palco invisível, tentando um dominar o outro.

– Você ainda não me convenceu a te dar essa pequena fortuna.

O homem era o estereótipo do branco unicórnio. Recém-formado e trabalhava no alto escalão da indústria do pai. Jovem baladeiro, adorava se jogar nos seus paraísos artificiais, repletos de música, mulheres e, claro, as drogas mais sofisticadas.

E aquela mulher estava oferecendo algo novo. Diferente de tudo que ele já havia experimentado. Algo que prometia ser a fuga definitiva. Ele tinha dinheiro de sobra, mas estava preocupado. Pessoas que vem de onde ela vem, tendem a enganar, era o que ele achava.

– Não existem palavras nos dialetos humanos conhecidos que descrevam o que esse miserável bastão faz com a sua cabeça. - diz tirando da bolsa algo parecido com um batom todo azul enrolado em plástico filme.

– É sintético ou natural? – pergunta inocente.

– Você acha mesmo que Deus seria tão bom com a gente? – ela disse rindo – A menos que isso seja um extrato do fruto proibido que Eva comeu. Aí sim eu digo... Éden nenhum valia a pena.

– Você trata como se fosse um segredo... - Pergunta ao perceber que está escorado na mesa, de tanta curiosidade.

– Mas é claro! Isso te leva para um mundo das ideias de Platão. Você não fica limitado pelas imperfeições desse mundo sensível. Tudo é puro, verdadeiro e eterno. Você acorda se sentindo como se tivesse descoberto um segredo que o mundo ainda não conhece. 

– Qual o nome dessa maldita droga afinal? 

– Ainda não demos. Envolve um pouco daquela coisa do segundo mandamento, sabe?

– Não usarás o nome de teu Deus em vão - ele sussura lembrando de suas aulas de crisma.

– Vejo que, assim como eu, é alguém religioso – disse ela tirando sarro.

– Temos que acreditar em alguma coisa, não é mesmo? No que você acredita?

– Eu acredito nessa porcaria de tubo azul!

– Você é uma incrível filha da puta de uma ótima vendedora, sabia? - responde rindo.

– Além de drogada, sou uma mulher de negócios. – sorriu.

O homem convencido, ainda não quer perder. Queria questiona-la uma última vez. Tinha que provocá-la de verdade.

– Se você é uma viciada mesmo, não é muito diferente daquelas pessoas lá de baixo. Você está linda aqui, realmente engana se misturando com a gente, mas você não é daqui. Você sabe disso...

A veia na tempôra da garota salta de preoupação. No fundo, sabia que a confiança era uma moeda frágil, especialmente em um jogo onde ambos estavam tão acostumados a enganar. 

 – Ou você não sabe com quem esta lidando, ou é realmente a mulher perigosa que diz ser. –  se orgulha ao vê-la abalada – De qualquer forma, por que eu deveria mesmo confiar em você?

Como se tudo aquilo fosse realmente fosse óbvio, ela entende que nunca teve nada a perder, mas pra ele, aquilo era só mais um jogo de poder e influência que homens como ele estão acostumados. Ela pega a taça, respira, e toma um longo gole da bebida escarlate.

– Bom... se até agora nada funcionou, confie em mim porque sou bonita pra caralho! 

Foi um bom jogo e ambos sorriem. Eles sabiam que naquela noite eles iriam se machucar.

Texto baseado em diálogos com Matheus Moreira.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Esperança

Pelo que se Espera?

Pelo súbito punhal
nas costas,
semeando sangue ao algodão?

Deslizando os dedos
sobre o couro do cabo,
fôlego cortado,
perfurando o coração?

Gira em pressão,
lâmina afundando — Enfia o Facão.
Corpo e morte escorre —
A dor. Um pobre músculo batedor.

Não se espera o coração.
Retira-o do peito e
traga a boca a mastigar
e cospir o que havia ali.

Não se espera o nome dela.
Horror e delírio.
Calafrio que aflita a espinha.
A maldição de uma era,
e se esforça demais,
mas o passado continua sóbrio e calmo
sob o seu olhar — Pensar.

Maldita, dita.

Ainda lembrarei,
e suspirarei pela esperança
de te encontrar talvez
e sofrer como nunca antes,
só mais uma vez.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A História de Nós Dois

Queria começar aqui a contar a historia dela.
a historia de nós dois.

Mas os principais eventos
começaram a partir do momento
que eu deixei de me importar.

Portanto,
não estou tão por dentro daquele sofrimento
quanto eu mesmo
quando a fiz sofrer.

Poderia pedir desculpas,
mas a falta de relevância que isso me remete
é tão grande quanto um grão de areia.
Para apaziguar seu coração,
apenas saiba que eu sei.

domingo, 6 de abril de 2014

Feira

Segunda-feira é foda.
Chego em casa cansado.
foi divertido,
mas foi cansativo.

Não tem comida pronta.
Aliás, quando tem?
Põe no microondas,
a comida é ressecada.
Ah, nem to com tanta fome assim.

Preguiça de escovar os dentes.
É melhor ir.
Mas posso ir amanhã de manhã.
Não. Eu vou.
Mas que escovada preguiçosa,
Era melhor nem ter escovado.
Já estaria na cama.

Chato é o suor.
Não to pingando, mas já pinguei.
Pinguei pra caralho hoje
e agora to grudento.
Fétido,
nojento.

Tira as meias meladas.
Amassa, junta e joga ali
no canto com outros pares.
Amanhã eu pego e coloco no cesto.
Eu juro.
É que agora eu só quero dormir.

Que calça pesada.
Como consegui ficar com ela o dia todo?
Tira logo,
porque estou cansado e só quero dormir,
mas me pergunto
se não é melhor tomar meu banho.
Estou tão cansado.

A cama poderia estar melhor.
Não me cubro,
ainda estou quente da rua,
quente da janela aberta do ônibus,
quente do ar condicionado do metrô,
quente de São Paulo.

A noite vai fazer frio
mas não agora.
Agora estou com calor
e depois me cubro.
Agora eu só quero dormir e descansar.
Amanhã ainda é terça-feira,
e terça feira é foda.