sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Último Vislumbre

 E a menina apertou sua mão.

Tinha dó da pequena, pois ela não havia vivido o que ele já vivera, mas aquele momento não era o mais adequado para se pensar em perdas.

Aliás, pensar nessa situação já era algo muito difícil. O homem queria fazer algo especial. Queria que seus olhos e suas memórias vissem algo exemplar e lindo em seus últimos vislumbres, e, como adorava aquela cidade, levou a garotinha, com menos de uma década de vida, para o topo do prédio mais alto, no ponto mais alto. Dali, eles presenciariam o fim de quase todas as coisas.

Voltou os olhos para aquele farto volume loiro de cabelo, preso em uma fita de cetim vermelha, e se perguntou se não valeria a pena se esconder naqueles abrigos que faziam tanto sucesso no anteceder do fim, mas se deu conta de que não.

Após a primeira onda de calor, a comida acabaria em dias, e a água em horas. Em poucos meses, as construções que ainda estivessem em pé estariam às ruínas, e, assim, não haveria abrigo para as possíveis chuvas ácidas que desceriam, destruindo aço, madeira, plástico e até mesmo a carne humana. Após a radiação, estudiosos apostavam que até a terceira geração dos que ainda insistissem em ter filhos não seriam mais parecidos com nada do que se vê hoje.

A questão era saber desapegar. E no que não conseguisse, levaria consigo até o fim. Foi assim que aquela garotinha assustada foi parar em cima daquele prédio naquela hora.

O homem começou a pensar onde talvez estaria a mulher de sua vida, mas percebeu que o calor vinha pouco a pouco em sua direção, e os botões de sua camisa já não aguentavam mais e começavam a deixar de existir naquele exato momento.

A mão da menina se afrouxou da sua, e a fita de cetim vermelha também.

E não havia mais nada.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Copos Americanos

Quatro jovens, num happy hour em uma sexta-feira, num bar qualquer, questionaram o motivo de estarem bebendo a famosa cachaça brasileira em um copo americano.

O copo americano é um formato padrão de copos de vidro, genérico, utilizado em quase todos os bares e padarias do Brasil para servir seus clientes. Seja uma tequila mexicana, uma cerveja alemã, uma vodca russa ou mesmo uma água da torneira brasileira, o copo americano é o recipiente escolhido.

Poucas são as fontes que revelam com exatidão a origem do copo americano, mas é evidente que cada vez mais, elementos de outras culturas são incorporados ao nosso cotidiano. Geopolíticos falam de globalização, mas até que ponto esse fenômeno afeta tanto o Brasil quanto o resto do mundo?

Esse fenômeno promove uma mistura de culturas que acaba por diluir a identidade local, substituindo-a por uma cultura padronizada, que é mais abrangente, mas não tão rica quanto a original.

Antigamente, conhecer uma nova cultura era considerado exótico. Hoje, o próprio conceito de “exótico” se tornou raro, pois tudo parece igual. A cultura local é frequentemente esquecida, destruindo sua singularidade.

Por que existe uma praça chamada Walt Disney perto da orla do Recife? Por que preferimos ouvir a versão dos Rolling Stones de "Garota de Ipanema" em vez da original? Por que não temos um substituto para a expressão "Happy Hour" usada na primeira frase desta crônica?

A morte da cultura local se resume à sua substituição por uma cultura padronizada. A imposição do que é considerado “real” é visível em todos os lugares.

Um exemplo claro é a desvalorizção do produto nacional. Rodrigo Santoro, ao atuar em filmes de Hollywood de qualidade discutível, recebe aplausos, mas ao fazer um filme nacional sobre um ícone do futebol brasileiro, poucos conhecem sua obra. Isso ocorre porque olhamos mais para o que nos é imposto do que para o que é nosso.

A conclusão dos jovens sobre o copo americano foi que a influência cultural dos Estados Unidos é tão grande que atinge até mesmo os momentos de lazer, simbolizando essa padronização global.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Da Contradição

Nunca achei uma boa ideia ter um blog. Quer dizer, já passei por inúteis tentativas que não renderam muita coisa. Eu, por exemplo, sem medo digo: não tenho paciência alguma para ler blogs, esse tal de diário eletrônico, mas cá estou a escrevê-los.

Meu primeiro blog surgiu quando ainda estava no colegial, entre 2007 e 2008, com ideias bobas sobre humor o extinto, chamava-se Negaiadaa! (assim mesmo, com dois "A"s no final), e como dizem os mais novos: eu seria cancelado!

Em 2010, fui me meter no meio das críticas cinematográficas com o parado Poltrona Numerada. Ele me servia como válvula de escape. Nessa época, eu estudava engenharia e me sentia preso nos inúmeros números que os professores nos davam todos os dias para estudar. Quando entrei no curso de Rádio e TV, em 2012, realmente me senti em casa, e a constância das postagens estagnou.

Foi então que me senti órfão. Sobre o que eu poderia escrever agora? Não lembro exatamente quando, mas um sábio professor disse: NUNCA PARE DE ESCREVER.


Poeta Márcio Ricardo - Facebook

Quantos cadernos serão gastos? Quanto de HD eu preciso para salvar todos os meus pensamentos e firulas sobre o mundo? Preciso, em essência, de um lugar para organizar tudo e ter sempre à mão.

Meus cadernos, abarrotados de tantas anotações, já não tinham mais espaço, nem lógica de organização. Um blog era a solução.

Não, não caí em tentação, apenas segui adiante, experimentando uma nova linguagem. Aquela mesma linguagem que está revolucionando a comunicação. Ouvimos tanto isso em aula.

Utilizo aqui também como um arquivo pessoal e, sem medo de afirmar: se penso, logo escrevo; se escrevo, secreto não é. Por isso, postarei todos os textos e ideias na ordem cronológica, no exato dia em que foram concebidos, puramente por um conceito organizacional mais eficaz.


Astonishing x-men #9

Se a contradição é o começo de uma consciência sobre algo que não existia antes, são nelas que devemos trabalhar para explorar mais universos desconhecidos até então. Basta relacionar esses universos. Cada nova linha vai se encontrar com outra, e com outra.

Tenho a minha história, você tem a sua história, nós temos a nossa história... Nunca tem fim. E, ao fim, tudo está conectado como sendo uma única grande coisa sem fim. O todo é um ponto, e o ponto é o todo.

Quantas histórias podemos contar?