domingo, 11 de janeiro de 2026

Herdeiro

Bruno achava uma delícia acordar naquelas manhãs de domingo ali na casa dos seus pais.

Os sons formavam uma sinfonia única. Os passarinhos competiam com motores de ônibus, carros e motos. As motos. Sempre tinha maloqueiro girando grau. Era um vizinho escutando forró e o outro ouvindo funk. Tinha pagode, gospel e sertanejo, mas todo mundo realmente escutava os cachorros. Porém, as grandes protagonistas eram as próprias casas. Suas próprias casas, quase todas em construção. Uma ópera de pedreiros em marteladas e grunhidos de serrotes sem fim. Bruno nomeava esse sentimento de Partitura dum Domingo de Manhã, e o Pai era um grande maestro.


— Olha o carro da rua passando no seu ovo!


Seu Odilon vinha construindo seu lar há mais de trinta anos. Todo seu salário formou um enorme casarão em amarelo canário. Sempre havia reformas e puxadinhos. Um quartinho que começou a ser construído ainda na década de 80 na encosta da rua de baixo, evoluiu para um sobrado, com uma longa varanda para as árvores. Na altura da avenida, tem a entrada principal, e uma garagem pequena ao lado dum salão, que primeiro foi um mercadinho da familiar e depois alugado para uma pizzaria. 


Não satisfeito, aos fundos da pizzaria, na laje da varanda, ele queria formar um “apartamentinho”, nome dado ao seu projeto de expansão. A vista dali de cima era linda, via-se o bairro completo, mais alto do que a vista da casa do Elias. No vizinho via a cratera de dentro dela, na casa dos pais, a cidade era vista por cima das árvores. 


Porém, a casa em obras do funcionário público nunca encontrava o seu fim. Evoluiu desordenada. Um lindo bosque de árvores circulava por todo o palácio, e entre a casa de cima e a casa de baixo, o salão, o porão, a varanda, o apartamento, Seu Odilon ainda pensava em fazer uma garagem para rua de baixo. Dessa vez para caber uns três ou quatro carros, ele dizia. A falta de ação empacava no paradoxo do pé de macadâmia, aquele último lá do fundo, deveria ser arrancado era o que todos diziam, e ele nem cogitava essa ideia.


— Tem árvores nesse quintal que são mais antigas que você, meu filho. — Sempre afirmava o Pai, quase sempre sujo de terra e adubo.


Ele achava realmente difícil sair daquela cama. Madeira maciça com detalhes sombreados talhados a mão, trazia à peça um toque rústico, sofisticado e elegante ao ambiente. Em verniz escuro a alta cabeceira trazia conforto e segurança, envolta de longas e fofas cobertas e travesseiros espalhados pelo colchão.


— Isso é cama de Imperador! — Bradava o pai quando apresentava o presente ao filho.


Nas trevas do aconchegante quarto do playboy da quebrada, ele acorda devagar tateando o escuro, com cuidado. Andava por entre gibis, pilhas de DVDs e livros de ficção científica espalhados pelo chão. Os posters entre o do Superman e o Homem-Aranha, indicavam o caminho até o interruptor. O colapso das pupilas eram melhor administradas quando expostas primeiro as lâmpadas de baixo lúmen, ao invés da brutal exposição ao calor solar de uma janela aberta. Já passava das 10h, e já tinha muita coisa acontecendo. Dava pra ouvir.


A benção da juventude desconhece o conceito da “ressaca”. O banho é um refresco. O céu estava azul. Dona Maria na cozinha pergunta o que queria de desjejum. Fruta e cuscuz, café com leite, suco ou chá. Tapioca, pão de queijo e queijo quente.


— Só não come muito, porque já vou fazer o almoço. — Aconselhava a Mãe.


Assistindo TV, o Pai entra em casa em tempestade. Não fala nada, só observa. Se move agitado como quem procura algo. Talvez encrenca. Ele era bom em achar isso. Não gosta de ver o filho deitado. O sol estava a pino, e ainda tinha muita coisa para construir. 


Bruno conhecia os sinais de quando um vulcão está para entrar em erupção. A qualquer momento cairiam meteoros em fúrias flamejantes que cortam todo o céu em carmim sangrando de um mundo em guerra e peste. Então à extinção:


— Você está horroroso. Seu cabelo está muito grande. Desgranhado. Melhor passar no cabeleireiro, deixar curtinho. Gente, como a gente deve cortar o cabelo a cada 20 dias, se não ficamos com muita cara de Negrão. Vai lá cortar seu cabelo. Depois de resolver isso, vamos ter uma conversa séria. Um homem na sua idade não pode estar nessa situação. Eu vi a hora que você chegou. Já era de manhã. Além de que eu já falei, que não gosto de ver você andando com aqueles moleques. Você tinha que voltar para a igreja comigo. Meu deus, como aquela época era melhor. Lembra como você era estudioso? Lia mais de dez livros por ano, pelo menos os que eu via, porque deveria ser mais quando ainda fazia engenharia. Agora está aí deitado. Mas eu posso te ajudar meu filho. Você é meu único filho, e eu daria a minha vida por você. Você não pode fazer isso comigo, me trair desse jeito! Eu sei o que você fica fazendo na rua de baixo, e eu não gosto disso… — E assim associava livremente sobre o horrível comportamento daquele filho.


Bruno sentia-se mais fraco a cada palavra do Pai. Sempre cansado. Não havia brecha para respirar. Sentia vergonha. Não de quem se era, mas do que se era observado. Um projeto falho, uma identidade reduzida, uma escolha deslegitimada. Não havia o que responder, não mudaria o discurso. Todos os caminhos do filho o levaram até aquele momento, e o trovão era ensurdecedor. Bruno sempre se escondia, imóvel, até o barulho passar. Feito uma barata pós-apocalíptica, era a única forma que encontrou para sobreviver.


O desconforto dessas recorrentes conversas e aconselhamentos que tinha com o Pai, gerava uma vontade absurda de fumar um roliço, grosso e comprido cigarro de maconha. Não havia outra linguagem que seu corpo conhecia que não fosse a dor. Nomeou a harmonia dessas escutas como: Tons de Almoço de Domingo.


De certa forma entendia seu pai. Como ele, um senhor de 60 e poucos anos do cerrado de Minas Gerais compreenderia um grupo de homens pretos e pobres fumando maconha e filosofando na quebrada em plena luz do dia? 


“Se não fosse Inhapim, Iapu‘taria melhor”, eram o que diziam. Filho nono de dez, duma fantástica história de amor entre Seu Altivo, um desses benditos caboclos que não tinham onde cair morto, e Dona Laudelina, uma das filhas do Velho Vieira, um fazendeiro da região que tinha vindo de Juiz de Fora. Era o ramo máximo da genealogia que Bruno tinha alcançado até então.


Diziam que o avô ou bisavô, um ancestral, do Velho Vieira, em algum lugar desse Brasil, laçou sua primeira esposa. Sim! Um homem sobre um cavalo, galopou por entre vales sertanejos, e jogou e amarrou uma corda em uma mulher indigena.


A fase de domesticação da espécie não é descrita no relato oral, porém tudo começou a se encaixar quando Bruno, através da história do País conheceu a figura de Marquês de Pombal, um político português que governou sob mão de ferro o reinado de D. José no meio do século XVIII. Seu principal conflito foi contra os jesuítas por acreditar que a companhia dificultava o controle da coroa no país. Reduziu a influência religiosa nas universidades e transferiu a capital de salvador pro Rio de Janeiro pra ficar mais próximo das minerações de ouro.


A história de Bruno se cruza com a história do Brasil no ano de 1757, no Diretório de Índios, quando Pombal decidiu substituir a tutela dos povos originários dos jesuítas para a administração civil. Essas leis visavam a civilização dos índigenas, proinbindo o uso de línguas nativas e incentivando o casamento inter-racial com colonos brancos que garantissem a posse de terras da coroa. Com ou sem amor, o rei distribuía terras para esses novos casais que iriam embranquecer nossa população. Nova Europa.


Com o fim das capitanias hereditárias, essas medidas do Marquês foram essenciais para a formação do território nacional. Decidindo assim a coroa de portugal, há séculos, quem seriam os donos dessas terras brasileiras. A imigração européia do Século XIX, empurra de vez os negros e pardos para as periférias das cidades, enquanto esses brancos ocupavam todo o centro de italianos, japoneses, espanhois e outros mais.


Talvez daí tenha vindo essas terras Vieiras, e toda a novela que se enrola do relacionamento dos seus avós. Casada a contragosto do pai, Dona Laudelina pega suas terras por direito, e dá nas mãos do caubói Altivo sua administração. Mas o que os cavalos entendem de pulgas? A família se muda pro Paraná em busca das terras vermelhas, e caem num golpe de plantação de amendoim. Esses Vieiras da Silva perdem tudo, levando ao declínio e colapso mental dos avós.


Seu Odilon era fruto do milagre brasileiro. Foi para São Paulo nos anos 70. Saiu da roça e foi morar com Tio Daniel, um irmão que já morava na Capital. Trabalhou, comprou um terreno em Morato, foi despedido, trabalhou mais e comprou seu apartamento da Zona Norte. Seu santo Graal, símbolo do sucesso do trabalho árduo e a resposta pra pergunta:


— Se eu consegui, porque você não consegue?


Nem chegou a morar no apartamento sozinho, pois logo conheceu Dona Maria, que na época era apenas a Senhorita Maria. Formosa de cabelos cacheados longos e olhos esbugalhados. Foram morar juntos e quando seu Odilon ficou desempregado no começo do governo Collor, fugiram pra Morato. Assim não iria pagar o valor do condomínio, e enquanto procurava outro emprego, ainda ganhava o aluguel, que ajudava a quitar o próprio apartamento. A vida andou. Morato absorveu todos eles para uma nova órbita. 


— Quando as coisas melhorem voltamos pro apartamento!


O Pai sempre almejou o retorno ao topo do prédio. Sempre desprezou a periferia, mas se aproveitava dos custeamentos dela. Ele não gostava da pobreza que sujava seus sapatos. Sentia-se superior. O elegante senhor da casa grande amarela do Casa Grande I. Funcionário público e respeitado pela comunidade. Mesmo assim, rejeita a cidade dormitório enquanto dorme nela.


O cabelo raspado era o único escudo que tinha contra um mundo de violência. Mesmo assim não levava em consideração todas as dificuldades que teve de se manter em São Paulo, vide o próprio desemprego, e inúmeras histórias de rasteiras corporativas que o Pai já contava em tom de confissão.


— Já tive um chefe que não gostava de preto.


Bruno entendia a preocupação do Pai. Ele veio de origem pobre, tem medo de cair em desgraça novamente. O Pai enche tanto o saco, pois apenas está preocupado com a carreira do Filho. Ele não entendia sobre o descolado mercado do audiovisual e da comunicação. Para ele, não ver mais o filho engenheiro era uma derrota do sonho de ascensão. Um vagabundo. A esperança ia esfarelando, em cada entrevista que ia. A zona sul nunca lhe parecia agradável.


— Quais chances de fato existem em mim? — Assombrava Bruno sobre seu próprio fim.


Reclamava do elitismo dos detentores dos meios de comunicação e lia artigos sobre aquele desmonte da ANCINE, lembrando o tal ano de 92, onde produzimos menos de cinco filmes no país, comparados à média de quase cem na década de 70, tudo devido ao programa Nacional de Desestatização lançado por Collor na Embrafilme, A produtora estatal que distribuiu centenas de filmes nacionais, que logo foi extinta.


Sem a Embrafilme, a produção nacional ficou à míngua, desamparada num mercado predador dominado por filmes estrangeiros, sobretudo norte-americanos. Eram tempos de glória para os ignorantes, e cólera para todo o resto.


Achava engraçado o fato da figura do Caçador de Marajás, interromper a vida do jovem tantas vezes. Seja pela crise econômica que fez sua família se mudar de cidade, seja pela crise econômica que moldou a forma atual de como se configura a área profissional que Bruno escolheu trabalhar, desse vácuo se explicava sua dificuldade em se ver na tela, mas também, porque quase seu nome foi Fernando, porém, exatamente pelas acusações de corrupção e escândalos que levaram ao impeachment do presidente da república, que o Pai não gostou da associação desta sugestão.


— Nascemos para ser cabeça, meu filho, não pra ser rabo! Olhe sempre pra cima!


O filho sempre odiou esse bordão. Dava a entender que existiam classes, e assim deveria se manter. Se você não fosse da classe dominante, você seria quem limparia a bunda dessa nobreza. Uma busca ingrata que não ousa questionar: “E se todo mundo limpar a própria merda?”


Assim, ele se esgueirava por entre o caminho possível do meio termo. Sabia que o Pai odiava sua associação com os meninos do Coletivo por mera conveniência apresentada pelo racismo, e ficava puto do Pai não conseguir enxergar tudo que ele, quanto coletivo estava produzindo, o filho estava sendo pago via editais públicos pelo seu trabalho. Ele estava tirando foto, editando vídeo, produzindo arte. Realizando seu sonho como produtor audiovisual, mas de nada parecia saciar a fome do abismo pelo mais valioso ouro. Assim como um a sombra de um jovem marajá.


Daí estava um paradoxo. Qual diferença tão incômoda que o Pai insistia em sentir entre o asco a um sarau na quebrada mas aplaudia pinturas europeias num museu? Não aceitava compreender que o racismo também maltratou aquele preto velho de tal forma que a força que emergiu dali era o auto ódio. — Negros Malditos.


— Não escute seu pai meu filho. Ele está com a cabeça cheia. — Dizia a Mãe tentando acalmá-lo. — Seu Pai ainda não te contou, mas lembra do seu tio Daniel?


— O irmão dele que desapareceu?


— Pois então… Encontraram ele. Acho que uma prima sua que mexe com essas coisas de aposentadoria encontrou ele num asilo perdido no interior. Tá com começo de demência.


Depois que os dois moraram juntos, ele se mudou pra Campinas, e de lá desapareceu. Nunca mais ninguém da família teve contato nem sabia por onde ele andava. O Filho chegou a escrever uma cartinha pro Gugu, mas Seu Odilon dizia que quando a gente quer sumir, e quem não quer ser encontrado, não tem quem encontre. 


Os três foram visitar o tio. Cara comprida, de índio velho, cabelo liso, branquíssimo e sempre penteado. Falava pouco, parecia triste, com olhar vazio, cheio de mágoas, lembranças e amores. Ele nunca casou, não teve filhos. Um homem duro que nunca pode ser fraco. 


Era visível em seus olhos as histórias perdidas daquilo que já foi um homem. O idoso era um presságio do que acontece com um homem preto que tenta aguentar tudo sozinho, e por fim acaba esquecido num asilo. Tentava acessar aqueles olhos castanhos, e assim como um editor, decupar os brutos das cenas que formavam o filme da sua vida, porém dali só se encontravam mídias corrompidas, que mal geravam um teaser do que o tio já pode ter sido e o que ele deixou de ser ao se afogar em suas próprias mágoas e ressentimentos..


Bruno observava o Pai e tentava compreender. Seu Odilon se frustrava com as confusões do irmão. Queria ter conversas com ele que não poderia mais ter. Tio Daniel afirmava ainda ter seus pais vivos, além de muita raiva de um irmão dos irmãos. Quando perguntado quem era esse irmão, o tio sempre se perdia ao lembrar de seu específico nome, porém parecia pontual em seu sentimento:


— Eu tinha muito irmão. Todo mundo me esqueceu. Fiquei sozinho.


O retorno do tio representava para seu velho a retomada das suas origens e o abismo do seu próprio fim. O começo na roça e o fim na cidade. A semente da primeira árvore e o primeiro bloco de sua mansão. Muros de uma história entre os dois que Bruno sabia ser impossível acessar totalmente, talvez perdida em inúmeros dizeres não ditos.


— Seu tio me tratava bem. Seu pai não gostava porque às vezes ele roubava a mistura dele na geladeira. Mas ele sempre devolvia! Seu tio era muito honesto. — Recordava a mãe quase que anestesiada pela conexão àquela memória. — Lembro de uma vez quando estávamos sozinhos ele disse pra me separar do seu Pai. “Ele não presta! Ele é Ruim!”, saia resmungando falando mal de tudo por aí haha…


Dona Maria termina de lavar a louça e guardar as panelas. Depois do almoço era sempre preguiçoso. O som da construção já havia voltado, e o sol estava mais fresco. Ela prometia que daqui a pouco iriam comer queijo fresco com um cafezinho. Sempre lembrava da sua terra em Minas e vivia cobrando Bruno para ir visitar seu Irmão. Ele não prestava muita atenção. Mimado, assistia TV como quem não olha o mundo.


— Vem comigo lá embaixo meu bem? O pé de limão está cheio. — Bruno gostava do plano. Dentro de casa estava frio, seria bom tomar um ar fresco com a Mãe. — Vem, vou lá pegar os baldinhos pra gente colher.


O Umbuzeiro foi um tipo de paraíso terrestre que sempre existiu no imaginário de Bruno. Um vilarejo do norte de minas. Tem esse nome pelas antigas canções de pomares repletos da fruta agridoce da região. Um Oásis. A sabedoria popular a chama de árvore sagrada do sertão, do tupi-guarani, árvore que dá de beber. O território pertence à cidade de Lontra, que também tem esse nome pela quantidade absurda que tinha do mamífero semiaquático.


Era uma viagem longa, muito longa. 17 horas de viagem ou mais. Mãe e filho fizeram muitas dessas viagens para o sertão. Bruno ainda criança via uma terra seca, gente pobre, porém era interessante ouvir a mãe em suas lembranças e descrições eram contadas sempre em tom de amor e ternura. Um conhecimento diferente do que ele aprendia na faculdade, do que o Pai exigia que fosse a principal fonte de conhecimento. Como aquele lugar tão árido dava tanto para beber?


Diziam que nasceu na beirada do Rio, próximo do olho d’água e afastado do vilarejo. Algumas famílias que não tinham dinheiro viviam ali, e só subiam para fazer negócios. Filha de Seu Manoel Dô, um caboclo do mato e da estrada, um provedor errante e de força prática, e Dona Amélia, uma filha da mata, mulher-ambiente. Um povo antigo daquela terra. Chamavam de Porão.


Esse lugar não existe mais. O tempo já levou até a última estrutura daquele espaço. Todo mundo começou a subir pra vila quando chegou a energia elétrica. O que parece absurdo, nada mais é do que a história do êxodo rural brasileiro, e no meio da encruzilhada se encontrava Bruno, aquele garoto mimado com um sonho tonto, surdo ao escutar todas as suas expectativas contrárias porém já sem fé e cego de seu destino.


— Esse limão daqui é chique, é limão siciliano, é bom pra salada. Uma vez eu fiz doce, e na receita vai muito açúcar, né? O diabete do seu pai foi lá pra cima. Hahaha. 


Além daquele tempo, Bruno alcançou seu tão sonhado sucesso profissional. Num restaurante chique de frente pra praia, lembrava daquele dia debaixo do pé de limão, e comparava o preço de três cigarros por um real, e o valor da porção de Vieiras que estaria experimentando pela primeira vez.


As Pecten Maximus, assim como ostras e berbigões, são moluscos encontrados em abundância nos mares do norte da Europa. Suas conchas coloridas são disputadas por colecionadores, e na vida selvagem é o único molusco bivalve migratório, capaz de se mover, sendo conhecidas como nadadoras ativas de águas geladas. Ficaram conhecidas pela sua representação no Nascimento de Vênus de 1483 de Botticelli.


Ele sempre achou curioso o estudo da origem dos nomes. Antigamente, apenas os mais nobres tinham nomes de família, enquanto os plebeus usavam sobrenomes para se diferenciar dos outros pela profissão, pelo que plantavam e produziam ou pelo local de origem. Foi assim que surgiram os "Ferreiras", "Oliveiras", "Pereiras", "Ribeiros" e tantos outros.


Não precisava nem ir para longe pra essa análise. Ainda associamos a identidade dos filhos a dos seus pais, como quando alguém mais velho pergunta: "você é filho do João?", ou em inglês, o Johnson.


Dizem que os "Santos" eram os judeus que se converteram cristões, e que "Silva" remete à palavra "selva", um sobrenome muito difundido entre imigrantes que queriam se desvincular da Europa, ou escravizados e pardos bastardos dos senhores de engenho. No podcast Mano a Mano, o cineasta Jeferson De Rezende contou que abandonou o "Rezende" por causa da origem escravocrata dessa região do Rio de Janeiro, adotando assim seu nome artístico: Jeferson De.


Numa leve pesquisa, Bruno encontra o brasão da família: estilo Game of Thrones, fundo vermelho com conchas amarelas. Os Vieiras nasceram em uma região de pescadores da Galícia, no norte de Portugal, e hoje é o 20º sobrenome mais frequente no Brasil. Curiosamente ou não, também os sobrenomes fraternos do Pai e da Mãe. Em ambos havia o Vieira.


Dona Maria, com seus pés empoeirados do Umbuzeiro, cozinhava arroz com pequi no fogão à lenha. Os Ramos das Rochas, que vem dos pais dela, apareceram entre as folhas das Vieiras orgulhosas da fazenda Boa Sorte, Iapu.


Bruno pergunta pra sua mãe como que o nome de uma família de pescadores da Idade Média Europeia, foi chegar no meio do sertão de Minas Gerais. Ela que foi pra São Paulo procurando uma vida melhor e parecendo saber daquele molusco que se move, gentilmente respondeu:


— Pois é, meu filho, as coisas andam. Sempre andam.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Poeta e O Engenheiro

Bruno, César ou Vieira. Nascido Bruno César Vieira, filho de Seu Odilon e Dona Maria. Veio ao mundo num domingo ensolarado do inverno de 92. Cancerianíssimo. Criado como filho único em uma casa de abundância e alegria por longos dias.

Nos primeiros anos, a família morou na Capital, no décimo sexto andar, num edifício residencial ali no início da zona norte. O xodó de seu Odilon. Orgulhoso, cantava sobre a história do edifício como se fosse esse, um próprio ser e entidade. E é.


Em poucos fragmentos, nosso personagem recorda daquelas que confundem a própria lembrança com um construto arquitetado a partir de histórias resgatadas, fotos ou outras formas de registro e oralidade.


Não sabia se era fato dado ou fotografia clicada. Flashes do pedalar numa motoca colorida por entre corredores estreitos. O cheiro de madeira dos novos armários do quarto dos pais. A forma assustadora que a luz da lua projetava as grades da janela num berço escuro, naquelas noites de chuva forte, e talvez até, seus primeiros passos: A percepção dos pés em meias cinzas e as mãozinhas apoiadas para se levantar. Então ria. Via seus pais a chamando do sofá. Só mais um passinho.


Ela se lembra daquela foto de dentro dela, vivendo naquele moletom colorido que andava.  Porém, numa dimensão além de sua compreensão, a família foi abduzida para as margens da periferia. Em tons de transição entre a cidade e o rural, lá, a Criança Vieira cresceu e se formou homem.


Lembra do dia da mudança. Ela fazia birra, e a mãe a levava para brincar no parquinho. Desengonçada, decide descer um escorregador de madeira de joelhos, e não sentadinha e pernas esticadas como todas as outras crianças. O sol castigava a tinta plástica que se misturava com a areia da caixa de areia no centro do playground. O atrito rasgou-lhe o joelho esquerdo, dando sua primeira grande cicatriz. 


O Pai falava pra se orgulhar, pois todo bom homem tem suas cicatrizes, mas no alto dos seus 4 anos não lhe pareceu ser um conselho aconchegante. A Mãe passava aquele antisséptico ardido no machucado. A criança chorava de berrar. Apenas a TV abafava seus gritos até o silêncio se instalar quando o Gugu noticiava o acidente de avião dos Mamonas Assassinas. A Criança gostava deles.  Assim, o Pai naquela brasília amarela que tinha na época, os levou de forma definitiva para o bairro residencial Casa Grande I em Francisco Morato.


No bairro não tinha nada. O pó da rua de terra chegava a dar quatro dedos de espessura nos dias mais quentes. Parecia um faroeste esquecido. Nos dias de chuva, nenhum carro conseguia chegar ali no ponto final da avenida. Na formatura do prézinho, por exemplo, a Criança se lembra de ensacar seus novos sapatinhos sociais com sacolas de supermercado enquanto puxava sua beca para cima do joelho para que não fosse sujo pela lama. Carros atolaram, e ninguém que precisasse saia de casa. Mas ali naquele bairro, todos precisavam sair de casa. A Operação era minuciosa, um esforço hercúleo. Qualquer sujeira seria castigada como uma marca social que revelava que nem todo mundo que brinca com  lama vai se sujar, mas todo mundo repara nos seus sapatos sujos.


Os Vieiras formavam uma família pequena. Sabia que a Mãe era cozinheira em restaurantes, e o Pai trabalhava na segurança pública do estado. Serem ambos mineiros constituiu todo o resto: Os costumes, a culinária, as músicas e os programas de TV. De todo o resto, nada parecia muito se importarem de serem todos afro-brasileiros. Pessoas Negras. E de fato, nem deviam. Não falavam dessas coisas nessa época.


Porém, o núcleo real estava mesmo dentro do conceito da Igreja. Em Cristo se orbita, e dele se cria a rotina. Aos sábados eles iam para a igreja. Por volta das sete, acordavam todos, tomavam banho e escolhiam vestir suas melhores roupas.


A Mãe frequentava uma capela antiga e simples na rua de baixo. A Criança e o Pai preferiam ir à Igreja Central. Gostava quando entrava naquele fusca velho azul e precisava segurar a porta do copiloto pelo braço, pois na trinca havia um defeito inexplicável. Não sabia dizer por que a Mãe não os acompanhava na Central. Mesmo com ela insistindo em dizer que preferia a Capelinha, sabia consigo a existência de um motivo maior.


Pai e Filho sempre chegavam atrasados aos cultos, o que não interrompia em nada a programação daquelas e de tantas outras manhãs de sábado. 


A Central era realmente uma igreja grande. Tanto em ordem monumental quanto funcional. Implementada num terreno em declive, típico de uma cidade periférica, era protegida por um muro alto. Uma escadaria longa levava ao pátio da entrada, e lá dentro, acima do nível da rua, um hall separava as salas de estudos do primeiro andar da nave superior. Com capacidade para mais de quinhentas pessoas, nunca estava cheia. Na frente de todos, como um palco, o piso eleva-se num altar com um grande púlpito de madeira ao centro.


O cerimonial semanal se dividia em momentos. Iniciava na escola sabatina. A cúpula regional escolhiam as lições da bíblia que todos iriam estudar durante o trimestre. A Criança nunca estudava, mesmo gostando da mitologia judaica cristã que os professores especulavam, ela nunca priorizava seu tempo nisso. Ou estava na escola, ou brincando sozinho em casa. 


Ela gostava mesmo de fazer parte da grandeza que aquela estrutura oferecia, como o clube de Desbravadores. Um grupo de escotismo infanto juvenil da igreja que promovia encontros bíblicos, aulas de pioneirismo, ordem unida e se organizavam em grandes eventos e acampamentos. Dezenas de adolescentes. Todos tementes a Deus, graças a Deus.


Como em cargos de um organograma corporativo, as crianças se dividiam em níveis de liderança de acordo com a idade e aprendizado. Ali por volta dos doze, a Criança era Conselheira, o que significava que ela circulava entre o ímpeto das crianças mais jovens e a razão e os ensinamentos dos seus mais velhos e anciãos.


Para a criançada, tudo aquilo era só mais uma desculpa para estarem juntos. Ali, na Central, eram rodeados de amigos e muitos outros familiares. Um ramo longo do Pai. Portanto, o sábado era um aguardado evento semanal onde se excitam ao reencontrar os primos e conhecidos.


Os Oliveiras eram uma família vaidosa de onde tinha alguma linhagem antiga e confusa de sangue que os conectam às Vieiras paternas. Donos de uma casa bonita e bem cuidada na parte alta da cidade, reforçava a aura de sucesso de um núcleo conceituado e respeitado por todos na congregação. Seus patriarcas, sempre muito gentis, tinham uma chácara no interior próximo onde faziam grandes festas.


Isaac era o pequeno que todos amavam. O menino de ouro. Uma promessa cercada pelo afeto como se todo o poder e sucesso que pudesse ter, já estivesse garantido antes mesmo de crescer. A Criança o amava. Se organizava para sentar próximo aos primos. Precisava ser rápida, pois seus pais normalmente impediam esse tipo de agrupamento para evitar os buchichos infantis em meio aos louvores.


Entre outros membros desta fauna religiosa, havia o menino Saul, um amiguinho de mesma idade, seu vizinho de parede lá na avenida, quiçá, o primeiro registro de amizade de ambos moleques. Orgulhoso, e claramente embebido num tal ar de superioridade herdado dos pais, a troca infantil era tão natural como quem testa o limite do seu poder. 


Saul dizia ser um primo perdido, mesmo não sendo, criava vínculo simbólico e se aproximava. Alternava entre o afeto e o desprezo de uma relação cotidiana. Seu Odilon trocava ferramentas com o pai dos meninos, e a Criança via sua mãe ir ao Grupinho com a avó de Saul. Amigas em Cristo.


Durante o culto, muitas vezes essas crianças se encontravam escondidas para brincar, e era quando também o Rapaz do Som os encontrava. Um jovem simpático, no começo dos seus vinte e poucos, sua figura contrastava com tantos adolescentes que se misturavam ao brincar todos juntos. Refletia um futuro porvir. Um mensageiro curioso do futuro e da vida adulta que lhes aguardavam.


Ninguém sabia ao certo de onde esse Rapaz surgirá. Seu interesse em tecnologia o colocou como responsável pela mesa de som da Igreja. Uma grande responsabilidade. O domínio daqueles controles atraía olhares e discussões acaloradas sobre softwares e hardwares na efervescência dos primeiros anos da gênese digital da quebrada. 


Sempre sorridente, o Rapaz do Som conquistou a todos. Já não se pensava mais nas programações religiosas sem o seu controle do sistema de áudio e iluminação. Ele era quem iluminava com luzes coloridas do altar, e disparava playbacks para os irmãos entoarem seus hinos. Egrégora fortíssima.


Ele se enraizou profundamente naquela cultura protestante e, como se fosse da noite para o dia, a Criança passou a perceber o quanto aquela figura se mesclava à sua vida, sobretudo na família dos seus primos. Não que fosse uma disputa, mas sentia ciúmes ao ver Isaac e Saul passarem a preferir a companhia do Rapaz e Saul, enquanto conversavam sobre computadores, placas de vídeo e memória Ram. 


Ela não sabia nada sobre isso. Preferia assistir filmes e ler quadrinhos, pois apenas dentro dessas histórias, era onde essa Criança não se sentia abandonada. Tentava decifrar as mensagens subliminares que lhe eram passadas, para que então compreendesse melhor o mundo ao seu redor, porém ainda era muito jovem para compreender seu brilho por si mesmo.


Ao final da pregação, a euforia transformava-se em frustração. A Criança pulava de pai em pai perguntando se seus primos poderiam passar a tarde com ela em sua casa. Observou logo cedo o estereótipo do evangélico esfomeado, e ter Mãe cozinheira era de fato um privilégio. Mesmo assim, teve que aprender a engolir seco as inúmeras recusas acompanhadas das desculpas dos outros planos sabatinos dos Oliveiras.


Seu Odilon nunca fora deveras bem quisto nesses encontros. Num passado não tão longe dali, existiu a boa época das juntadas de panela. No grande quintal da casa amarela, chegaram a juntar quase cem pessoas numa festa. A regra era clara: Cada família levava um prato. Multiplicavam o pão. Porém, o ressentimento passou a florescer nessas trocas constantes.


Certa vez, O Pai do Isaac foi numa dessas juntadas levando apenas um pé de alface. Uma única unidade de alface. Claramente haviam passado na feira minutos antes do almoço. A Criança tem vívidas memórias do Pai Incrédulo não conseguindo conceber a ideia de que aquelas pessoas comeram lasanha, filé, carreteiro, strogonoff, sorvete, pudim e brigadeiro, em troca de um pé de alface que nem lavado estava. O Pai se sentiu desrespeitado, e revela uma grande lição ética do Seu Odilon: a troca deve ser justa, o esforço deve ser mútuo. 


A era da juntada já era passado, mas a garotada não se importava muito com isso, gostavam de passar os fins de semana juntos. Na casa dos Vieiras assistiam filmes, na casa do Saul jogavam Counter Strike e na chácara dos monteiros guerrilhavam no tabuleiro de War. Preferiam o II, mas quando lançaram o Império Romano, ficaram todos realmente empolgados.


Naquele culto, o pastor ainda pregava quando ela fugia da nave rumo ao pátio inferior. Encontra seus primos em conspiração, todos juntos com a atenção em algo que o Rapaz do Som mostrava. A Criança se aproximou e se encantou ao ver uma câmera digital passar de mão em mão de forma curiosa. 


Era um tipo cybershot. Um MP15. O auge tecnológico do começo dos anos 2000. Saul olhava pelo viewfinder, e se surpreendia quando apertava o comando de transferir a imagem da lente para o enorme visor digital de duas polegadas do aparelho. Isaac gargalhava ao testar o zoom digital e quase conseguir invadir a privacidade de algumas janelas abertas que conseguiam ver ali de cima da redondeza. 


— Podemos fazer um filme. — Compreendia a Criança como um dos primatas de Odisséia do Espaço. Naquela câmera havia o poderoso peso que um osso pode ter para destroçar um crânio humano. A Criança via ali a ferramenta definitiva do seu potencial. Em êxtase, toma o aparelho das mãos do primo, porém, antes mesmo de sentir seu peso, foi advertida:


— Hey! Toma cuidado! Isso não é brinquedo! — Dizia o Rapaz do Som arrancando a câmera de suas mãozinhas.


— Que moleque mal educado. Se loko! — Desviava Saul seu olhar numa reprovação pitoresca..


— Deixa na mão dele que ele vai quebrar! — Dizia a Isaac Oliveira dentro de sua verdade como se fosse um grande profeta infantil.


Algum ancião dissipa o grupo por trás pastoreando-os de volta ao culto. Lugar de criança é dentro da Igreja. Isaac volta a brincar com a câmera sob a tutela do Rapaz enquanto sobem as escadas. A Criança sobe sozinha para a nave e o Pai a vê, fazendo sinal para sentar-se ao seu lado, mas ela já sabia que ele não a compreenderia. Não ainda. Envergonhada, prefere ficar em pé aos fundos escutando em silêncio seus pensamentos até o fim do culto.


Sentia-se, como um gato numa caixa apertada demais nos fundos do bagageiro de um avião que não sabia seu destino, a não ser o piloto com quem não conseguia se comunicar. Faltavam palavras para ela descrever seu mundo. O Pai, sempre muito orgulhoso o levava para museus e exposições de arte, comprava revistas e livros que condizia com sua idade e alugava fitas e mais fitas vhs para mantê-la em casa, ao invés de brincar nos perigos da rua.


— Na rua não tem nada que presta. — Afirmava convicto com a concordância da Mãe.


Assim, talvez tornava-se indissociável sua personalidade cada vez mais afastada de uma extroversão social à esses conceitos artísticos plantados, pois ali, sabia que não existia perigo, pelo contrário, era incentivado seu consumo, assim como as boas notas educacionais. A falta de tato com as exatas parecia normal dada a clareza nas áreas humanas, sobretudo em redação. Tornava-se comum a piada dos extensos contos em sem números de folhas de almaço na sexta série. Professora Salete o parabenizava, porém pedia maior coesão textual:


— Se você gosta mesmo de escrever, vou te dar um conselho. Existem dois tipos de escritores, meu bem. O jardineiro e o arquiteto. Esse último monta sua história como se fosse um projeto de um prédio. Ele sabe onde começa, por onde vai passar e como termina a jornada do seu herói. Já o jardineiro, planta uma semente e vê sua história germinar e crescer como um ser vivo e todas suas complexidades. Mas nem tudo cabe numa história. Você sabe qual é a ferramenta de um jardineiro? A tesoura. Para sua árvore ficar bonita e saudável, ele tem que podar alguns ramos e folhas que podem atrapalhar todo seu desenvolvimento. Um bom autor tem que saber quais gravetos deve cortar, com cuidado para não remover as partes que realmente importam, entende? O que você realmente quer dizer?


A Criança se formava Adolescente, e na idade de prestar vestibular inserido na pressão de decidir para a sociedade todo seu destino e futuro, em uma volta qualquer da igreja pra casa, Pai e filho conversam no sol do meio dia em busca do abrigo daquele toldo do ponto de ônibus em frente ao Celestina. Porém, antes mesmo de concluir seu pensamento, já o tinha remodelado pela expansão do Pai em deboche:


— Você quer estudar cinema, e aí? Vai saber o nome dos diretores, nome dos filmes, dos atores, e isso vai te ajudar no que na sua vida? —  Naquela perspectiva, o Adolescente se via bobo por sonhar. Por querer. — Eu sempre digo! Existem 5 profissões que um homem de verdade deve ter: médico, advogado, engenheiro, professor ou… 


Mesmo quando adulto, sempre esquecia qual era a quinta profissão do manual do grande e bom homem de sucesso que o Pai oferecia. Não lhe interessava em nenhuma delas, porém o mais velho insistia em pôr valor na cabeça da Criança: 


— São profissões que nunca vão faltar vaga de emprego no mundo, entende? Um professor ganha mal, mas pode ter certeza que terá seu salário todo mês em sua conta paga pelo governo. Esse papo de ser artista não está com nada. Como você vai se sustentar? Não estarei aqui por toda a sua vida. Jornalismo e design gráfico também pagam muito mal. Eu lá criei filho para ser desenhista de embalagem? Deixa eu te dar um conselho: escolhe um desses cinco cursos que te falei pra fazer vestibular e pronto. Assunto encerrado.


A Criança estava confusa. Não poderia exercer aquilo onde enxergava sua verdade. Os anciãos da igreja também aconselhavam a tomar a decisão correta. Ditavam que primeiro vinha o dever e depois o lazer. Sentia uma força enorme no peito, porém contrária a tudo que estavam lhe aconselhando, não sabia dizer o que era, mas nessa altura, ela já sabia da existência de um buraco negro em seu peito cheio de fome. Não tinha nome, mas não tinha nada que era posto ali que preenchia aquele abismo do vazio.


"Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido." 

— 1º Coríntios 13:12.


A vida passa feito uma viagem de trem. Trens destes que formam malhas ferroviárias e se espelham em diversos caminhos. A Criança, que já tinha sido Menino, Adolescente, Moço e então ali, Jovem, percebia seu reflexo pelo vidro da janela do vagão e observava a paisagem lá fora em movimento formando uma tela. Sabia de onde vinha, e poderia descer ou pular em qualquer uma das outras estações que não fosse seu destino final, mas por quê faria isso?


Conhecida como cidade dormitório, Francisco Morato dependia completamente da sua vizinha gigante, a Grande Capital. Centro comercial, empresarial e acadêmico. Onde as coisas giravam e se movimentavam. Como uma escada dantesca, existem dez estações entre a Luz e a periferia à margem da cidade grande.


Para moradores de Morato o transporte sob os trilhos da linha 7 era algo normal. Lembra de uma ex-namorada que morava no interior. Gastava quatro horas da rodoviária da Capital até sua cidade. Porém, quando a namorada narrava o mesmo acontecido, ela citava seis horas, ele logo percebeu que a diferença de fuso horário devia-se à enorme normalização do cidadão periférico ao pegar o trem para a capital. Desde trabalhar, até estudar ou encontrar amigos. Como se fosse o tempo de um download para que essas pessoas pudessem existir na cidade grande. Porém, um trem para a cidadã interiorana poderia ser visto como algo como deveras fabuloso.


O Jovem, estudante de engenharia, estava voltando de uma oficina de cinema, e encontrou Salomé lendo um livro sentadinha naquele banco do canto da janela. Eram dois estudantes. Ele desabafava sobre estar odiando a faculdade de exatas e a colega dizia estar adorando seu curso de humanas. Duas grades interessantes. 


As sombras do vazio de seu peito encontravam formas. Lá dentro se encontra um personagem dividido e confuso. O Poeta e o Engenheiro. No meio dos dois, um paradoxo. O Jovem não conseguia se ver como o engenheiro que o Pai sonhava, e sabia que viver de Poesia era uma verdadeira loucura. Impensável. 


O meio termo era insuportável. Sempre que ia para a cidade, sentia que voltava machucado, e em casa se sentia livre para se dizer quem era. Era como se o Engenheiro quisesse eliminar o Poeta. 


Para Salomé esse sentimento tinha outro nome. Com um olhar sabido com aqueles grandes dreads, ela parecia uma ancestral que o aconselhava sobre como um Jovem negro deveria se comportar na sociedade: 


— Fanon corta diariamente. O teórico afirma que a sociedade molda o ser, e mostra como a sociedade divide o branco e o preto. Somos a somatória do eu e da sociedade. Nosso caminho está nesse limiar. O desafio individual é aprender a se defender.


O Jovem pensava sobre si. Ali e no futuro, viveu momentos que essa pressão da dualidade o levou à depressão. Tomado por uma tristeza profunda e falta de esperança. Chegou a medir a altura do seu corpo comparado a porta do seu quarto e qual poderia ser a melhor forma de cair estando pendurado pelo seu cinto amarrado no pescoço.


— Amendoim, crocante, cinquenta!


Era quase meia noite, e num vagaroso movimento, todo o trem oscilava lentamente, quase como num berço a ninar. Assim como toda rotina, tediosa, porém a experiência por si, possuía quase que consciência própria, entre seus vários personagens, como nós, o vagão estava lotado de outros trabalhadores, prostitutas, estudantes, agiotas, mecânicos e secretárias, mas de todos esses, não poderia passar despercebido os vendedores ambulantes. Salomé acenava para um que passava gritando e atravessando o vagão quase cheio com algumas pessoas em pé, e outras tantas encostadas sobre as portas.


— Dois amendoins aí. — Pedia a menina oferecendo uma moeda de real pro marreteiro..


Maninho chave, cabelo na régua, bermuda de tactel e chinelo de dedo. Colou oferecendo pipoca doce, batata chips e pururuca com ketchup, e se quisessem água, poderia chamar seu outro parceiro escondido na próxima estação. Quem atuava como ambulante, estava sempre tendo que criar estratégias para fugir dos guardinhas. Eles tomavam a mercadoria sem dó, deixando toda rapaziada no prejuízo. Mas é como dizem, se não existisse a pobreza, não haveria motivo para buscar a riqueza. 


Mais tarde, além daquele trem, o Jovem escutava uma poesia falando mais ou menos sobre a ideia de que, se curioso ao observar a pobreza, não vá à zona sul. Lá, é apenas onde os ricos moram, logo, suas casas, roupas e trejeitos serão todos iguais.


Mas na quebrada, na quebrada era diferente. O Jovem, por exemplo, morava naquela casa grande e amarela numa das avenidas mais movimentadas da cidade. A rua já tinha sido asfaltada, e a via se tornava em mais um efervescente centro comercial. Ali moravam comerciantes, funcionários públicos e talvez outras pessoas com um pouquinho a mais de dinheiro, de quem morava nas ruas de baixo. Lá era onde encontrávamos casas mais simples, ainda sem asfalto ou encanamento. Sem acabamento.


— Você está estudando engenharia e falou que está voltando agora de uma oficina de cinema, mano? — Perguntou Salomé curiosa.


— Isso mesmo. Tô gostando. Mas é só um hobby, nada sério. — Dizia engolindo saliva como quem estivesse mentindo.


Através daquelas aulas da oficina, teve a sensação de que encontrou uma lente, enfim capaz, de mostrar um mundo com um pouquinho mais de sentido. Poderoso o suficiente que chegava a parecer distorcido. Discussões recém adquiridas sobre uma matéria interessante. O Jovem não conhecia esse sentimento  através das engenharias. Limites, integrais, geometria e estatística lhe parecia tão difícil como um tradutor explorando um novo idioma e lhe faltando linguagem para explicar conceitos tão únicos num idioma, quanto a própria complexidade daquele povo falante. Um mundo limitado e não integrado. 


— Po, que da hora mano. E como você ficou sabendo dessa fita?


— O pessoal lá do centro cultural, tá ligado?


— Tô ligado. Faz tempo que não os vejo. Como eles estão?


— Como não? Você não tem que mandar seus desenhos toda semana lá pro site deles não é? Se loko, eu acho muito foda suas tirinhas hahaha.


— Mano, então… Tô pra te falar essa fita desde Caieiras. Mas você está se confundindo. Eu não sou a Salomé, eu sou o Elias. Ela é quem desenha lá pro jornal dos caras, eu sou professor, hahaha.


Com cara de tonto, o Jovem percebeu a confusão dos irmãos gêmeos. De perto percebeu que Salomé era a de dreads enquanto Elias estava quase sempre de cabelo curto ou black power. Salomé era quem fazia arte e Elias estudava história, tinha acabado de começar a dar aula inclusive. Salomé era quem gostava de poesia, e Elias também. Enquanto Salomé desenhava, fazia quadrinhos, zines e outras coisas, Elias tinha um canal abandonado no youtube que falava de política e fazia piada das previsões daquele polvo adivinho que ficou famoso em copas passadas.


— Qual seu nome mesmo, mano? — Perguntava Elias.


Hesitou ele num descompasso tão ínfimo, que nem mesmo o tempo notou, porém dentro dele, do Moço, Menino ou Criança, uma tremenda placa tectônica se deslocou de sua consciência: 'Quem eu era?'


— Última estação: Francisco Morato. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. — Anunciou a locução.


Se esbarrando na multidão saindo do trem e rumo aos ônibus do terminal, Elias dizia que aquela noite era aniversário dele e da irmã. O convidou para ir à sua casa ainda naquela noite. Já tinham outros amigos lá com algumas cervejas. O plano era pedir umas pizzas, fumar uns becks e trocar ideia. Era pesado, porque era de leve. Engraçado foi perceber o amigo realmente animado pelo bolo que as meninas falaram que tinham feito.


O Rapaz sabia que seu Pai não iria gostar. Os meninos sempre foram vizinhos, desses que nem existe memória da primeira vez que se viram. Desde sempre, estavam ali pelo bairro, mas em ruas diferentes. O pai se orgulhava muito de morar na avenida e não na rua de baixo.


— Ali é favela! — Fomentava o pai ao ódio.


Aceitou o convite. Entraram no ônibus e foram além do último ponto da avenida e desceram por toda a rua de baixo. Pularam do coletivo na altura dum poste de luz piscante, gerando uma aura de fim do mundo, ou lugar abandonado. Seguiu Elias ao subir numa casa em bloco simples, cinza, rebocada num terreno sem muros nem calçada. A porta de entrada era protegida por um enorme pé de manga cobrindo toda a frente da casa. Estava camuflada. Chegaram cumprimentando todos. Riram contando da confusão do trem e observava os longos dreads de Salomé. 


As meninas bebiam vinho e faziam piada sobre o fato de ambos os irmãos serem feios. Comparavam os amigos em graus de beleza. Quem era mais padrão? O Jovem foi o grande eleito, e logo todos riram. O que aprendemos de beleza padrão vem de olhos claros, cabelos loiros e pele clara. O negro era o abjeto. Nossos cabelos eram feios, nossos traços grossos. Não seria possível alguém periférico, ainda mais sendo preto, ser considerado padrão. Fugia do conceito padrão do que é ser padrão.


— Olha aí o menino de ouro! Quanto tempo, minha cor! Como estão seus pais? — Abraçava Kepler, o mais velho dos irmãos — Lembro que ia lá pra rua de cima pra comprar as coisas que minha mãe pedia. Naquela época só tinha ele com um mercadinho por perto. Seu pai é um visionário, porque aqui era tudo mato. — Falava enquanto apontava a visão ampla da lage. — Olha no que esse bairro se transformou hoje.


A arquitetura da quebrada era mais ou menos a mesma em quase todos os lugares, e dali se via todo o bairro Casa Grande I. As luzinhas das janelas desenhavam um mar de morros e casinhas se multiplicando ao horizonte erguidas no tijolo baiano e concreto bruto. Por entre as depressões e as montanhas, o relevo e a mata atlântica se estendiam por entre rios sem fim. O vento parecia mais fresco ali. Parecia.


A cidade fazia parte de uma grande região de bacias formando o  rio Juquery: O Rio do Espinheiro que Dorme. 


A Vila Belém foi costurada pela linha da ferrovia Railway, de 1867. Ponto central entre vendedores, trabalhadores e fazendeiros. Em 1948 virou distrito de Franco da Rocha e em 54 surgiu a necessidade de renomeação da vila, devido a já batizada Belém do Pará. “Francisco Morato” vem em homenagem a um legista com uma porção de terras pela região. Importante homem para o loteamento da cidade. Em plebiscito, se emancipou de Franco dia 21 de março de 65. Cidade do zodíaco de Áries.


— O nome Belém da Serra na real ainda se mantém lá na Praça do Coreto no centro. — Concluía Salomé. — Hoje está abandonada, mas antigamente era onde a comunidade se reunia.


— Mas o mais interessante de observar, são os nomes das ruas aqui do bairro: Rua da Capela; Rua do Pilão; Rua do Engenho; Rua da Senzala. — Completava Elias — Ao que tudo indica, o bairro aqui deveria ser mesmo uma fazenda. Dizem que colhiam abóboras.


Ali no canto da laje, uma porta de guarda roupa com um espelho quebrado, reflete o jovem que se observa. Seu cabelo comprido revelava que passava da hora de ir no cabeleireiro, porém, observando seus amigos, todos negros, pardos e favelados, enxergou algo que nunca tinha visto. Embora estivesse no meio da quebrada, o Jovem nunca se viu tão inteiro.


É irônico, sim, porém existiu um fenômeno que englobou muitos jovens negros brasileiros da década de 90, sobretudo os de descendencia evangelica, que se chamava Chá Revelação Racial. Se lembrou do pai quando vestia a Criança para a igreja. Ele nunca se sentia bem com aquelas camisas pólos, porém ali estava ele com sua camisa de flanela e seu cabelo black power vestido.


Pediu emprestado o elástico que Kepler usava para formar seu black. Como uma tiara, o jovem empurra todo seu cabelo para cima. Com um pente garfo amplia sua coroa. E pela primeira vez se vê ali como um homem negro, feliz e com os seus iguais, se sentia em uma comunidade que nunca sentiu fazer parte, e de tantas outras que se esforçou em fazer parte, nunca se sentiu tão encaixado como antes daquela lage com aquele grupo de pessoa e seu cabelo armado. Se sentia amado entre amigos.


— Parece as neguinhas da favela. — Afirmava Kepler rindo, gerando um silêncio constrangedor perante o mais velho e mais negro entre todos.


O que parecia uma piada racista, vindo dele soava como um aviso, a observação que apenas ele em seu lugar o fazia. Ele foi o primeiro que fez Bruno questionar seu próprio tom de cor, por exemplo. Qual vantagem tem um pardo perente um negro retinto?


— Você quer ver o desespero que eu sinto, quando estou andando na rua, e uma mina branca aparece na minha frente. Eu saio correndo pro outro lado da rua. — Contava Kepler como quem contava os feijões para cozer.


Kepler não era apenas negro, mas o pior entre todos. Grande, velho e gordo. Uma figura tão assustadora quanto doce. Meio hacker, vivia falando de bitcoin. Sobre o cabelo, ele advertia: Toda coroa tem seu peso. Uma neguinha da favela que não tem nada a perder, pra se sentir bonita mostra seu cabelo pra cima, em black, como a coroa crespa que ela é. Não era desleixo, era sobrevivência em orgulho


Entre um baseado e outro mais, discutiram até sobre seus sonhos. Elias queria ser lembrado, com estátuas pelas cidades e livros sobre seus feitos. Salomé queria poder viver dos seus desenhos e se comunicar pelas suas poesias. E o Jovem, quase em tom de desabafo, falou pela primeira vez em voz alta sobre seu maior desejo, escondido e por vezes escondido, porém como a excalibur enfiada no centro do seu peito aguardando o rei Arthur surgir em profecia:


— Quero ser diretor de cinema. Fazer um longa metragem, ser conhecido pelo meu trabalho. Acho que queria poder escrever, gravar e editar um filme. Dirigir minha própria história.


As meninas chamavam para cortar o bolo. Estava realmente uma delícia. Massa branca com cobertura de chocolate. Elias anunciava que as pizzas haviam chegado, a quem depositava sua esperança de que pagaria a conta completa, porém houve a discussão da divisão de cem reais por três. Um deles, teve que pagar de boa vontade o um centavo a mais que completaria o valor total. R$33,34. Mas como é feita essa escolha?


Na época Breaking Bad estava na moda. Eles falam sobre um episódio que fala sobre o peso da alma. Walter White ao fazer cálculos sobre toda a matéria orgânica que forma nosso corpo, descobre uma falta. Um pequeno percentual para completar um ser humano real em completude. 100%. Aquilo que escapa. O personagem da série diz que essa diferença seria o peso da alma.


Assim, num limiar metafísico, na ponte entre a loucura e a sanidade, já não tinha mais o que dizer, restou apenas a vontade. A vontade criadora. Os irmãos então, começam a recitar algumas poesias. Um sarau


Ali eles fundariam um coletivo artístico cultural, preto e periférico. A poesia que escorria dos corpos negros invisiveis, o grito da quebrada, sentimento organizado e não apenas dores vazias. Ocuparam a Praça do Coreto por anos, fazendo saraus e rodas de conversas. Viu a política pública reformar a praça e promover outras atividades naquele espaço histórico.


Ele se lembra do momento que viu sua mãe subir no palco do sarau, na frente de um monte de gente, e recitar uma poesia simples, que tinha acabado de escrever ali na multidão. Se emocionou com a genialidade da Mãe. Amor bruto. Ela encarava o mundo e tinha o grande dom de transformar os desafios do dia a dia em coisas boas. Ela possuía uma luz muito poderosa.


Aquele Jovem reflete sobre como é difícil pro homem preto periférico, cheio de obrigações, assumir o manto de artista. Porém ali, lacrimejando com a poesia da mãe, ele teve a certeza do poder da arte como arma reveladora e motivadora.


Sempre sentimental, no decorrer dos anos observou como sempre escreveu sobre o amor e seus sentimentos, enquanto se impressionava com as poesias políticas e sociais dos seus amigos. Slams e batalhas de RAP se multiplicavam na cidade, e de certa forma lembrava aquele movimento do hip hop paulista, ali no largo do São Bento nos anos 90, que revelou artistas como  Rappin' Hood, Thaíde, Xis e tantos outros MC' s.


Aprendeu na Universidade Pública como os gregos clássicos classificavam o valor de cada matéria poética como alta ou baixa. Eles diziam que o amor já era por si só, um material já belo por natureza, portanto, escrever uma poesia bonita sobre o amor seria redundante. O desafio de um bom poeta estava em escrever sobre matérias não belas, como a guerra ou assuntos corriqueiros do homem. Mesmo assim, O jovem pensava muito sobre seus amigos, amores e desamores. Escrevia sobre seu sofrimento como uma forma de sublimação e compreensão do que sentia.


Porém, também foi a partir de poesias, que no decorrer dos anos


 a egocêntrica consiste

no mal de escutar eu,

de sotaques tão lidos

e acordes já conhecidos.

não precisa entender vós,

com problemas alheios

ou enfermos efêmeros.

de circunstância além de mim,

 é fim.


 e digo isso porém

sem todo aquele vai e vem,

de chamego gostoso

que entretêm.

te quero tão bem, 

Meu Bem.

 mantém,

os brindes recheados

de sorrisos trocados,

as letras distintas

que tecem e que pintam.

ouvido afinado,

como o paladar apurado

de um garoto viajado,

e toda sua descrição.

pois, se a vida não for disso,

 desisto.


 casa,

pertence à circunstância de nós.

de amar e ser amado,

 sobre não estar sozinho.

— Bruno César Vieira


O jovem chegou em casa bem tarde, quase cedo. Barulhento, procurou por algo gorduroso que lutasse contra aquela larica. Ligou a TV ao som de um filme qualquer, despertou a ideia de escrever sobre todas aquelas novíssimas ideias que estavam ocorrendo.


Ele abre os armários procurando um caderno. Um item antigo dentro de casa, quase como se estivesse sempre ali. Capa dura com folhas sem pauta, costuradas ao miolo. Às vezes surgia próximo a mesinha do telefone com única função a de anotação. Por volta então, sumia de novo assim em repetição.


O encontrou aos fundos da cômoda de livros, atrás da porta de espelho. Já velho, sujo e manchado, não revelava mais aquele quem um dia já foi: Um caderno branco. Folheou entre rabiscos, números, datas e horas. Um diário de ligações. Teve ali ternas lembranças, num dia, numa aula com sua Mãe, o ensinava a assinar seu nome nas primeiras folhas.


Em uma página em branco, começou a escrever. Não lembra mais o que era. Um conto, crônica ou poesia? Um Bildungsroman. Ao fim, o Jovem quer assinar, mas suspende novamente em hesitação: Bruno, César ou Vieira?


Desconfortável, o Jovem já não cabia mais dentro da concha daquela velha e ancestral Criança Vieira. Se jogou no dicionário e procurou: Do germânico, “Brun” significa moreno, marrom ou castanho. 


Achou simbólico. Negro como era, passou a escrever sobre o mundo apartir do seu próprio negrume. Assim o Poeta passou a assinar como Bruno.