domingo, 30 de março de 2014

A Maritaca do Zé Fogo Fugiu

Fiu fiu.
— A Maritaca do Zé Fogo fugiu!
CORRE! CORRE! CORRE!
Fiu fiu.
— Cadê ela?
— Na palmeira.
— Qual palmeira?
— Aquela lá.
— Qualquer lar?
— Aquele lá
— Tu viu?
— Me viu.
Fiu fiu.
— Vem cá.
Fiu fiu.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Barata

Antes Eu vivia.

Rompi naquela lembrança. Mesmo sem saber, ali se revelava uma incrível verdade sobre mim; sobre o outro; sobre o mundo. 

Lembro daquela barata. Um ser repugnante. Andava de baixo para cima, de lado e de costas. Não respeitava as leis das três dimensões. Não se importava. Imponente e abjeta, ali na minha sala de estar, como se fosse dona de tudo aquilo, com a tranquilidade de saber que viveria, sobreviveria além das bombas atômicas e se alimentaria de carne assada, putrefata, feliz. Além, mas não agora. 

Fingi não ver. Desvi. Pretendi seguir a vida como se não houvesse problema nenhum. Deveras quase não tinha. Não era medo. Asco, talvez. O vocábulo mais próximo da nossa língua para descrever o sentimento ante aquele inseto repulsivo. Logo, ação ainda sem resposta pro impulso do incomodo de se levantar e ir ali matar aquele bicho.

Natural. É o que se faz.

Mas toda rejeição provoca uma reação. TOC, TOC, TOC. Como um problema esquecido, então explodido. Não se quer ver, mas se escuta, sente, cheira. Quer esquecer, mas sempre lembra. Sente e senta. Está ali. Ali, num TOC, TOC, TOC incessante, viciante e veloz. TOC, TOC, TOC no som daquelas patas escamosas massacrando meu chão, sujando a minha casa, inundando minha limpeza. Imunda. TOC, TOC, TOC. Precisava de uma faxina. 

Precisava fazer algo.

Por alguns segundos, brincamos de policia e ladrão. Não tinha veneno. Ela não merecia isso: ser engasgada, defumada. Eu ficaria sem ar. Pesaria o clima. Mas por fim, a pisei. Esmaguei. Implodida num grande CRACK que ecoou, incômodo, por todo o cômodo. Indo, expandindo, ecoando, limpando. Como o mar em ondas sonoras tão potentes que se tornavam visíveis, indivisíveis. Um único CRACK, separado num C-R-A-C-K solene.

Subiu o cheiro da carnificina. Seu órgãos se espalhavam pelo chão e se misturavam ao pé descalço descuidado, contaminado. Mesmo assim jazia um prazer, sentindo tudo ainda se mexendo, se contorcendo na luta por uma vida ao fim. Em gozo os dedos movimentavam o licor, feito trufa de maracujá. Amarela. Logo após morder a casca de chocolate preto, quebrando aquela tábua dura de doces artesanais em pequenos fragmentos, Escorre aquele líquido que se espalha pela boca, derramando-se pelos lábios, grudando na barba e pingando pelo piso feito as gotas esquecidas de sangue do cadavér que se quer ocultar.

Mas tudo isso veio antes d'Ela entrar na sala. Bonita, cheirosa. Sentou no sofá e fingiu não se importar com minha presença. Mexeu no celular e riu pra outros. Assistiu à TV e até falou de amor. Tudo estava bem, até ela se levantar e pisar em mim. Morto. Sofrido. Destruído ali, com todos aqueles ternos sentimentos que um dia já senti. Não era alguém, era sujeira. Jazia frio e seco, restando as cascas que ainda não haviam sido limpas. Chamaria uma diarista.

A Barata morreu ali.