domingo, 30 de agosto de 2015

Boa Noite

sempre que dizia boa noite, lembrava-se dela.

em tempos conturbados e confusos, e sob a visão de algo novíssimo, ele apenas queria ser ser alguém normal, sem pretensão ou exigências. tomou como filosofia de vida a rotina, parou de pensar no destino, e sim no processo do caminho.

quando a conheceu não queria pensar nela, mas seus olhos se fundiram, não por necessidade, mas por correspondência.

"ė areia demais", eram o que todos diziam.

"aconteceu", era o que pensava.

sua fala era calma e adiante, sem pausas ou tremedeiras. a voz e o pensamento enfim trabalhavam em uníssono, como um sistema mecânico perfeito e sem defeitos.

bom dia na alvorada, boa tarde no almoço e boa noite como um desejo pleno de que nada catastrófico acontecesse até o próximo bom dia.

e em tempos tão rudes e maléducados, se perde os bons costumes subvertendo-se em convenções formais demais para a agilidade urbana.

mas ele realmente queria que ela tivesse uma boa noite.

ele mesmo tão sem pretensão, percebeu nela os sinais de que o desejo não era apenas seu, de que não estava maluco ou vendo coisas, de que de alguma forma ela se interessou.

naquela festa a viu de longe, sempre tão cercada e requisitada. "é areia demais" pensou. 

não conseguiu lidar e fugiu, fez más escolhas, mas resolveu voltar ao perceber de que não precisava conquista-la, pois ela já era sua.

conversaram tempo demais para o tempo real, mas viveram bons momentos para o tempo vivido.

foi só então naquela noite, naquela noite, que tiveram uma boa noite.