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domingo, 28 de dezembro de 2014

Pé de Rato

Eu tenho medo de rato.

Não é um medo normal. É uma parada quase feminina. Uma aversão que nem me deixa olhar para um animal desses nem pela televisão sem sentir vontade de me cortar.

Eu tenho medo do Mickey!

Nunca assisti Ratatouille!

Aqueles olhos grandes, aqueles dentes proeminentes, aquelas mãozinhas com pequenas garras sempre se mexendo. E aquele rabo pelado enorme que fica se mexendo, mexendo, mexendo... E o pior de tudo: não dá para saber o que aquela ferinha está pensando.

Meu asco é tão grande que ninguém... ninguém... faz ideia do que sofri para conseguir terminar esta descrição.

Enfim.

Minha casa é cheia de árvores. Tantas que, se você olhar para cima em um dia de sol e céu azul, não conseguiria vê-lo por causa das tantas ramas e galhos que se cruzam ao alto.

Aqui em casa, somos amigos da natureza.

Meu pai montou um suporte de aproximadamente dois metros, próximo do pé de graviola e de pitanga, e coloca periodicamente alpiste e milharina junto de água com açúcar para que pássaros possam se alimentar e assim sejam visitas frequentes em nosso lar.

Teve um dia em que contei 17 passarinhos entre azulões, canários e pintassilgos, aproveitando o pouco que fizemos por eles.

São cenas lindas. Um quintal repleto dos mais variados cantos. A sinfonia da vida.

00:22 - 28 de dezembro de 2014

Há pouco, saí no quintal.

Aproveitar um pouco a brisa notur… SÚBITO, escuto um barulho próximo ao suporte de alpiste.

"Deve ser algum passarinho", penso.

Mas logo repenso minha teoria, pois pássaros não são animais de hábitos noturnos. Logo, a menos que fosse uma coruja fazendo aquele raspar de folhas, nenhum outro pássaro poderia estar ali naquele momento.

Aproximo-me e vejo a feição da morte.

Um roedor.

Assusto-me e saio de perto. O horror é tanto que esbarro na bacia de água dos cachorros, que se derrama por toda a extensão da minha panturrilha.

O barulho faz com que tal cavaleiro do apocalipse perceba minha presença. Ele sai correndo...

PELOS GALHOS DA ÁRVORE.

EU JURO POR DEUS QUE TINHA UM RATO EM CIMA DE UMA ÁRVORE, tentando chegar à milharina dos passarinhos. Eu juro.

Não sei se fui muito claro ao descrever o sentimento de repulsa que sinto por esse paladino amaldiçoado, mas apenas tente pensar na coisa que você tem mais medo. Só que agora ELA ESTÁ EM CIMA DE UMA ÁRVORE!

Então, vamos lá, caso ainda não tenha entendido.

Ratos são demônios que Lúcifer, o anjo negro, achou melhor banir do Tártaro por serem escrotos demais. Assim, esses roedores só puderam encontrar um lugar em que fossem aceitos e que tivesse comida à vontade para eles: o lixo.

Ratos sofrem de fotofobia, o medo da luz, o que torna muito desagradáveis os passeios diurnos dessas criaturas.

Ou seja, ratos vivem no escuro e no lixo. Portanto, para evitar qualquer problema do coração, basta evitar tais lugares, principalmente à noite.

Só que não estamos mais a salvo!

A qualquer momento, quando menos se espera, um pequeno bastardo pode cair em cima de você, abrir caminho devorando seus olhos e consumir todo material orgânico dentro de você até chegar ao seu coração e matá-lo.

Sim... Isso pode acontecer porque EXISTEM RATOS EM ÁRVORES!

Quer dizer que eles não estão satisfeitos com os esgotos e bueiros da cidade? ELES TÊM QUE AGORA FICAR MONTADOS POR CIMA DA GENTE?

Ficar nos observando de cima, igual GTA 2?

Já não bastam as pombas, os morcegos e os vampiros para nos atormentarem pelo ar? Agora temos ratos evoluídos que conseguem subir em árvores?

QUE PORRA É ESSA AGORA?

Pé de rato?

Meu pai não reagiu muito bem à minha sugestão de colocar fogo no quintal.

Sinceramente, não sei como vai ser o resto da minha vida com esses ratos voadores. A única coisa que sei neste momento é que meus cachorros vão ficar com sede hoje, porque eu não volto ao quintal nem se fosse para conhecer o Richard Gere.

PS.: Eu adoro o Richard Gere.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Dengue

Mai réde junto menino,
pra esse papo escutá.
É a historia de Barnabé,
um véio sin vergonha qualquê.
Mas a prosa é interessante,
vide que vista esta
das conversa do caduco Mané.

Barnabé ainda bebê
tomava leite de canudinho
de tanta mamparra que tinha
pá chupar num peitinho.
Mais tarde na escolinha,
enquanto os menino a sola gastava
de chinela havaiana no pé,
o pequeno barnabé,
só de carrinho de mão andava
e nada da bota usava.

Durmia o dia intirin'
de baixo dos angazeiro.
Di barriga pru á,
tomando garapa
e tocando pandeiro.
O mais gordo da famia,
era só falar de trampo,
que a moleza já batia.

Mas moço então crescia,
e Barnabé trabalho não tinha
e pá pága as regalia,
só se fosse de caipira.
Pique nele não havia,
e garrô numa solução
para cair em debandada.

O fito era simples,
e si mancá Barnabé ia.
A escorá parô de lavá,
e o pé esquerdo a unha cortá.
Dum lado urupé crescia
du oto a unha encravaria.
Toda vez qui seu pai ia pra roça,
Barnabé sempre mentia
que nos pés um fado tinha,
se não pra sina também ia.

Vida mansa era 'que queria,
nada de vida severina,
Barnabé doença não tinha
e ofício algum o apetecia.
Dizia até os mexeriqueiros
que seu pé parecia o de galinha,
que muito grave era,
e que solução nenhuma havia.

Inté hoje Barnabé acamado afirma,
e vive de sua aposentadoria.
Nenhum dotô sabia,
porque nenhuma doença parecia.
Mas o povo sabedoria tinha,
e isso há muito tempo atrás,
"Dengue", era o que todos diziam,
aquela moléstia sem cura,
que Barnabé tanto sufria.

domingo, 30 de março de 2014

A Maritaca do Zé Fogo Fugiu

Fiu fiu.
— A Maritaca do Zé Fogo fugiu!
CORRE! CORRE! CORRE!
Fiu fiu.
— Cadê ela?
— Na palmeira.
— Qual palmeira?
— Aquela lá.
— Qualquer lar?
— Aquele lá
…
— Tu viu?
— Me viu.
Fiu fiu.
— Vem cá.
Fiu fiu.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

As Árvores do Meu Pomar

Ventos são correntes de ar,
batendo à murmurar
nas árvores do meu pomar.

Não é o vento que estou a escutar,
mas sim, as folhas raspar,
as pétalas balançar e os ramos chacoalhar.

Não é vento que estou a observar,
mas sim um fluxo verde sempre a inclinar
nas árvores do meu pomar.

Não é vento que estou a degustar,
mas as abelhas que passam e encharcam de pólen o ar.
O cheiro de paz, é onde quero estar.

Não ouço, não vejo, não sinto. 
Onde há de estar?
Vento invisível, onde há de estar?
Estão nas árvores do meu pomar.