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quinta-feira, 3 de março de 2022

Cinema e Negritude

 “O século XXI pertence aos contadores de história”
— Emicida

A jornada do herói, tão difundida no cinema, tem suas raízes na jornada de Heru (Hórus), um mito de fundação do Egito Antigo. Este conceito, amplamente estudado por Joseph Campbell, tornou-se uma das bases mais utilizadas para roteiros nos últimos 100 anos do cinema americano.

Por que falar sobre contar histórias? Porque o cinema, em sua essência, é uma poderosa forma de narrar histórias. Embora muitas delas tenham nascido em solo africano e com protagonistas negros, o cinema, assim como outros campos do conhecimento até a primeira metade do século XX, ignorou amplamente a presença das pessoas negras.

Há apenas sete anos entre o fim da escravidão no Brasil (1888) e o início do cinema em Paris com os irmãos Lumière (1895). Por ser uma área historicamente elitista e de alto custo, a presença negra no cinema sempre enfrentou barreiras, resultando em absurdos como o filme O Nascimento de uma Nação (1916) e na falta de representatividade que ainda vemos nas telas hoje.

Criar a nossa própria produção cultural, é um dos caminhos que temos para criar um mundo mais justo e livre do racismo.

Como exemplo, podemos analisar a produção cultural judaica em comparação com a afro-diaspórica, numa discussão levantada por Victor Ferreira, repórter da Globo. Essa análise nos ajuda a entender as diferenças entre modelos de produção que valorizam e propagam suas histórias.

Estamos vivendo um momento histórico para a produção de conteúdo negro, com muitos criadores contando suas próprias histórias e construindo uma produção cultural consistente. Por isso, iniciativas como esta, que amplificam vozes negras, são cruciais, oferecendo oportunidades para que possamos narrar nossas próprias histórias de maneira autêntica e transformadora.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

O Futuro é Preto

A ficção científica é branca.

Entre cartazes de filmes americanos e livros do Flash Gordon, vemos homens brancos conquistando e colonizando o espaço e seus mistérios. Peles negras são substituídas por alienígenas bárbaros verdes, azuis e vermelhos, enquanto a pele negra é apagada, invisibilizada, assim como a branquitude o faz no mundo real.

Nos futuros distópicos da ficção científica, dominados por corporações e regimes autoritários, a humanidade vive em um mundo cinza. A exploração espacial, muitas vezes romantizada, revela-se como uma nova fronteira para a perpetuação do colonialismo e do capitalismo, onde as minorias marginalizadas continuam invisíveis e oprimidas.

Mas a grande realidade é que já vivemos nessa tal de Distopia. Em uma máquina do tempo, não existe nada pra nós além de só imaginar o futuro, e sorrir.

O que vocês chamam de apocalipse, é o passado para África. Enquanto nossa história foi brutalmente descarrilhada de seus trilhos naturais de desenvolvimento. Sequestrados e violentados em seus berços natais, e levados para o novo mundo.

MAAFA, o grande desastre.

Nos privaram do privilégio de sonhar. De nos representar... Falaram dos nossos cabelos, enquanto roubavam nossas músicas, ritos e a esperança de um futuro sem submissão.

Não! Não quero protagonistas negros com sabres de luz ou lutando contra robôs, nem negros nas suas revoluções patriarcais. 

Quero a volta das minhas matrizes. Dos meus saberes. Quero receber os créditos que nos foram roubados. Quero a mão das mães trançando meus cabelos enquanto planejo um futuro sem as manchetes e o Estado nos impõem. 

Quero o futuro glorioso que nos tiraram. Enforcar os grandes brancos com as linhas que traçaram em nossos mapas. Afoga-los com o sangue e as lágrimas que salgaram o Atlântico e as rotas alteradas dos tubarões.

Mas há de chegar o dia em que pirâmides prateadas gigantescas pairarão sobre os céus, e dali surgirá nós, seres de pura energia, inexplicável e subjetivo, onde cada um verá o mais profundo negrume da imensidão da nossas almas. Imagem e reflexo. 

Talvez eu seja João Pedro, Sun Rá ou Mariele. Meus cabelos formam imponentes coroas e vestes tribais, banhadas de ouro e prata, escorrendo pelas curvas de todos os nossos corpos, por fim, recompensados e descansados. Impomos então: 

"Povos de África e Diáspora, vocês já sofreram muito nesse mundo. Venham a nós curar nossas dores, para voltarmos a tomar as rédeas do mundo que nos foi arrancado."

Somos nós então, os filhos dos afronautas e descendentes das matriarcas da Etiópia. Conquistamos o espaço com nossa pele que reluz.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Novas Narrativas de Resistência

Em épocas de prêmios e festivais, é importante observar as tendências nas narrativas e histórias contadas. Mesmo com oscilações políticas que valorizam ou ignoram a cultura nacional, as histórias do povo sempre encontram sua vingança na arte.

Das premiações internacionais às nossas, temas recorrentes dialogam com realidades compartilhadas. De palhaços que refletem os resíduos tóxicos da sociedade urbana a uma família desamparada que questiona quem é o verdadeiro parasita do capitalismo, chegando à resistência de virarejos. Histórias que traçam um panorama poderoso sobre as pressões sociais que moldam os indivíduos.

Coringa, Parasita e Bacurau.

Embora esses temas não sejam novos, essas obras trazem um tom mais reativo e revolucionário, como gritos vindos de uma cultura resistênte. Esse movimento de empatia com os mais vitimizados ecoa em festivais como o de Tiradentes, que defendeu a criação de narrativas mais esperançosas e afetivas.

Mesmo diretores consagrados como Quentin Tarantino alinham-se a esse discurso. Em Era Uma Vez em Hollywood, ele transforma a vingança em justiça histórica, dobrando a realidade para criar finais que desafiam opressores, como em Bastardos Inglórios e Django Livre. Vingança e revolução ganham novos significados.

Ainda assim, é válido questionar: para onde vai esse ativismo? Ricky Gervais criticou no Globo de Ouro artistas por militar em premiações, e a ironia de ricos falando de problemas alheios é evidente. Protestos, como os de Kleber Mendonça Filho em Cannes de 2016, levantam dúvidas sobre a conexão desses discursos com a realidade.

Apesar disso, filmes como Bacurau e Democracia em Vertigem continuam indispensáveis, mesmo que ainda falhem na representatividade. Em 2020, a presença de mulheres e negros nas premiações permaneceu baixa, apesar de anos de luta. Contudo, grandes nomes como Spike Lee e Jordan Peele lideram mudanças relevantes, mostrando que "nós por nós" é essencial.

Ao olhar para a periferia, encontramos um cinema brasileiro mais esperançoso e revolucionário. O curta Negrume, de Diogo Paulino, representa essa nova era: identitário e transformador. Que filmes como Marighella sejam reconhecidos por suas vozes amplas e claras, não por censuras.

Que essas narrativas tragam esperança e ferramentas para um futuro mais justo.

sábado, 20 de julho de 2019

Classificado

Jovem negro periférico formado em audiovisual procurado emprego fixo na área, reclamando do elitismo branco burguês dos detentores dos meios de comunicação e lendo artigos sobre o desmonte atual da ANCINE, lembrando que em 1994 apenas dois longametragens foram produzidos no país, devido ao programa Nacional de Desestatização lançado pelo então presidente Fernando Collor, determinando a extinção da Embrafilme, produtora e distribuidora estatal que ajudou a colocar no mercado mais de 200 filmes brasileiros entre 1969 e 1990. Sem a Embrafilme, a produção nacional ficou à mingua, desamparada num mercado predador dominado por filmes estrangeiros, sobretudo norte-americanos.

São tempos de glória para os ignorantes, e cólera para todo o resto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta Suicida #47

Pelos anos aqui vividos, sei que, por meros protocolos sociais, tenho que escrever isso para demonstrar um pouco das minhas últimas considerações.

Mas, diferente de todas as outras 46 que já escrevi, desta vez vou ser diferente. Não vou falar sobre motivos, nem culpar pessoas pela minha decisão. Pelo contrário, irei apenas dar aquele adeus gostoso, como quando uma visita querida está indo embora, e você se despede, mas não quer que ela vá. Pois é.

Mas sempre pedem motivos. Quero ver minha vizinha velha dizendo:

— Você ficou sabendo? Moço bonito, jovem, com uma vida inteira pela frente...

Ou aquele conhecido da escola, comentando com preocupação:

— Eu estudei com ele... O que será que aconteceu?

Não os julgo. Sei que o inesperado e o diferente chamam atenção. Sei que não é hipocrisia. Eu realmente sou um jovem bonito com toda uma vida pela frente. Mas eu desisti. Assim como você desliga um videogame sem salvar, simplesmente porque não quer mais jogar.

Todos os pensamentos além disso são firulas sem sentido. No final, tudo vira estatística, números e dados. E, na real, é isso que importa de verdade.

Não sei ainda como será. Mas não quero atrapalhar sua viagem de metrô. Nem usar cordas, porque é algo muito forte e bruto. Também não quero usar armas brancas ou de fogo — muita sujeira. Quero algo rápido e que dê pouco trabalho para quem for limpar.

No meu funeral, não quero nada demais. Coxinha, talvez coxinha. Sempre adorei coxinha. Dizem que só quem gosta de verdade de você vai ao seu funeral. Tardia lição, mas concordo. Por isso, quero oferecer coxinhas às pessoas que forem. Como um último gesto de gratidão por terem me acompanhado até na morte.

Mas sem chororô. Quero ser lembrado. Apenas isso.

Quero ser lembrado como aquele cara engraçado, em quem você sempre podia confiar. Aquele amigo para todas as horas, que, por mais séria que fosse a situação, sempre contaria uma piada. Quem sabe, ela até viraria bordão para outras situações semelhantes. Ou não.

Quero ser lembrado como aquele cara beberrão. Pois é, eu gosto de beber. Cerveja, por favor. Quero ser lembrado como aquele cara criativo. Tive uma ideia! Quero ser lembrado como o seu melhor namorado. Quero que se arrependa de ter me feito chorar, mas também que se lembre dos momentos bons antes das crises. Quero ser lembrado como caloteiro. Acho que estou devendo uma grana por aí, mas agora estou morto e isso não importa mais. Mas, por favor, lembre-se de nunca mais emprestar dinheiro para caras como eu.

Quero ser lembrado pelos meus vídeos e textos. Massagem no ego.

Quero ser lembrado pelos inúmeros foras, tocos e bolos que me deram. Quero que se lembrem de que passei boa parte da minha infância e adolescência apaixonado por uma garota baixinha, de cabelo cacheado, que nunca quis nada comigo.

Enfim. Quero que, daqui a 50 anos ou mais, sentado em sua cadeira de balanço, relembrando o hoje, você se lembre de mim e diga:

— Onde será que anda aquele pilantra, hein?

Mas aí, cai a ficha de que estou morto. E que talvez não dê tempo de ler a carta número 48.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Re-Começar

Recomeçar significa começar de novo. Uma nova chance para algo que já aconteceu. Outra vez.

Nos últimos dias, essa palavra pesou para mim. Muitas vezes achamos que a resposta está no passado, tentamos resgatar o que foi, dar-lhe nova vida. Mas não. A resposta nunca está lá. O novo sempre é melhor. O novo nunca é desbotado.

Antes de tentar reviver algo que já acabou, é preciso se perguntar: por que acabou da primeira vez? Acredito no aprendizado e no amadurecimento, mas o que teve fim não pode simplesmente voltar. Não por orgulho, mas por lógica.

Então surge outra questão: se houve motivo para terminar, por que haveria motivo para tentar outra vez?

Sem dúvida, a esperança deixada no passado nos faz acreditar que pode ser bom de novo. Mas se o fim aconteceu, foi porque o peso do que era ruim superou o desejo de continuar.

Nos últimos dias, pensei em recomeçar. Mas talvez seja melhor apenas começar algo novo, de novo.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Da Contradição

Nunca achei uma boa ideia ter um blog. Quer dizer, já passei por inúteis tentativas que não renderam muita coisa. Eu, por exemplo, sem medo digo: não tenho paciência alguma para ler blogs, esse tal de diário eletrônico, mas cá estou a escrevê-los.

Meu primeiro blog surgiu quando ainda estava no colegial, entre 2007 e 2008, com ideias bobas sobre humor o extinto, chamava-se Negaiadaa! (assim mesmo, com dois "A"s no final), e como dizem os mais novos: eu seria cancelado!

Em 2010, fui me meter no meio das críticas cinematográficas com o parado Poltrona Numerada. Ele me servia como válvula de escape. Nessa época, eu estudava engenharia e me sentia preso nos inúmeros números que os professores nos davam todos os dias para estudar. Quando entrei no curso de Rádio e TV, em 2012, realmente me senti em casa, e a constância das postagens estagnou.

Foi então que me senti órfão. Sobre o que eu poderia escrever agora? Não lembro exatamente quando, mas um sábio professor disse: NUNCA PARE DE ESCREVER.


Poeta Márcio Ricardo - Facebook

Quantos cadernos serão gastos? Quanto de HD eu preciso para salvar todos os meus pensamentos e firulas sobre o mundo? Preciso, em essência, de um lugar para organizar tudo e ter sempre à mão.

Meus cadernos, abarrotados de tantas anotações, já não tinham mais espaço, nem lógica de organização. Um blog era a solução.

Não, não caí em tentação, apenas segui adiante, experimentando uma nova linguagem. Aquela mesma linguagem que está revolucionando a comunicação. Ouvimos tanto isso em aula.

Utilizo aqui também como um arquivo pessoal e, sem medo de afirmar: se penso, logo escrevo; se escrevo, secreto não é. Por isso, postarei todos os textos e ideias na ordem cronológica, no exato dia em que foram concebidos, puramente por um conceito organizacional mais eficaz.


Astonishing x-men #9

Se a contradição é o começo de uma consciência sobre algo que não existia antes, são nelas que devemos trabalhar para explorar mais universos desconhecidos até então. Basta relacionar esses universos. Cada nova linha vai se encontrar com outra, e com outra.

Tenho a minha história, você tem a sua história, nós temos a nossa história... Nunca tem fim. E, ao fim, tudo está conectado como sendo uma única grande coisa sem fim. O todo é um ponto, e o ponto é o todo.

Quantas histórias podemos contar?