sábado, 20 de julho de 2019

Classificado

Jovem negro periférico formado em audiovisual procurado emprego fixo na área, reclamando do elitismo branco burguês dos detentores dos meios de comunicação e lendo artigos sobre o desmonte atual da ANCINE, lembrando que em 1994 apenas dois longametragens foram produzidos no país, devido ao programa Nacional de Desestatização lançado pelo então presidente Fernando Collor, determinando a extinção da Embrafilme, produtora e distribuidora estatal que ajudou a colocar no mercado mais de 200 filmes brasileiros entre 1969 e 1990. Sem a Embrafilme, a produção nacional ficou à mingua, desamparada num mercado predador dominado por filmes estrangeiros, sobretudo norte-americanos.

São tempos de glória para os ignorantes, e cólera para todo o resto.

domingo, 3 de março de 2019

Greve dos Caminhoneiros

Só ouvi falar do caos quando estava no trem, saindo da quebrada.

No centro, vi um burburinho. Havia trânsito. Muito trânsito. Os postos de gasolina tinham filas de quebrar quarteirão, vendendo gasolina superfaturada. Os adesivos de mulheres de pernas abertas já tinham sido retirados, e as panelas estavam vazias, pois no mercado foi instituída uma cota máxima de alimentos.

Mas na quebrada... Na quebrada, o samba continuava.

Na quebrada, é normal faltar comida na mesa ou dizer que não há dinheiro para pagar a condução. Não deveria, mas é normal.

A quebrada reclama, grita e se manifesta, e ainda assim é chamada de vagabunda pelo patrão. Mas, mesmo com todas essas mazelas, o pessoal daqui tem um sentimento de comunidade e coletividade que, com todo respeito aos meus amigos citadinos, não se encontra em qualquer lugar.

A quebrada sempre sangrou. A quebrada vive em guerra civil. A quebrada é a revolução, e o que vocês chamam de caos, a gente chama de rotina.

Então, quando me perguntaram o que eu achava da greve, do dólar e do lifestyle burguês afetado, eu disse:

— Que queimem.

Quero ver o apocalipse quando o playboy descer o morro e ouvir do menino que o chá acabou.