quinta-feira, 21 de maio de 2020

O Futuro é Preto

A ficção científica é branca.

Entre cartazes de filmes americanos e livros do Flash Gordon, vemos homens brancos conquistando e colonizando o espaço e seus mistérios. Peles negras são substituídas por alienígenas bárbaros verdes, azuis e vermelhos, enquanto a pele negra é apagada, invisibilizada, assim como a branquitude o faz no mundo real.

Nos futuros distópicos da ficção científica, dominados por corporações e regimes autoritários, a humanidade vive em um mundo cinza. A exploração espacial, muitas vezes romantizada, revela-se como uma nova fronteira para a perpetuação do colonialismo e do capitalismo, onde as minorias marginalizadas continuam invisíveis e oprimidas.

Mas a grande realidade é que já vivemos nessa tal de Distopia. Em uma máquina do tempo, não existe nada pra nós além de só imaginar o futuro, e sorrir.

O que vocês chamam de apocalipse, é o passado para África. Enquanto nossa história foi brutalmente descarrilhada de seus trilhos naturais de desenvolvimento. Sequestrados e violentados em seus berços natais, e levados para o novo mundo.

MAAFA, o grande desastre.

Nos privaram do privilégio de sonhar. De nos representar... Falaram dos nossos cabelos, enquanto roubavam nossas músicas, ritos e a esperança de um futuro sem submissão.

Não! Não quero protagonistas negros com sabres de luz ou lutando contra robôs, nem negros nas suas revoluções patriarcais. 

Quero a volta das minhas matrizes. Dos meus saberes. Quero receber os créditos que nos foram roubados. Quero a mão das mães trançando meus cabelos enquanto planejo um futuro sem as manchetes e o Estado nos impõem. 

Quero o futuro glorioso que nos tiraram. Enforcar os grandes brancos com as linhas que traçaram em nossos mapas. Afoga-los com o sangue e as lágrimas que salgaram o Atlântico e as rotas alteradas dos tubarões.

Mas há de chegar o dia em que pirâmides prateadas gigantescas pairarão sobre os céus, e dali surgirá nós, seres de pura energia, inexplicável e subjetivo, onde cada um verá o mais profundo negrume da imensidão da nossas almas. Imagem e reflexo. 

Talvez eu seja João Pedro, Sun Rá ou Mariele. Meus cabelos formam imponentes coroas e vestes tribais, banhadas de ouro e prata, escorrendo pelas curvas de todos os nossos corpos, por fim, recompensados e descansados. Impomos então: 

"Povos de África e Diáspora, vocês já sofreram muito nesse mundo. Venham a nós curar nossas dores, para voltarmos a tomar as rédeas do mundo que nos foi arrancado."

Somos nós então, os filhos dos afronautas e descendentes das matriarcas da Etiópia. Conquistamos o espaço com nossa pele que reluz.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Novas Narrativas de Resistência

Em épocas de prêmios e festivais, é importante observar as tendências nas narrativas e histórias contadas. Mesmo com oscilações políticas que valorizam ou ignoram a cultura nacional, as histórias do povo sempre encontram sua vingança na arte.

Das premiações internacionais às nossas, temas recorrentes dialogam com realidades compartilhadas. De palhaços que refletem os resíduos tóxicos da sociedade urbana a uma família desamparada que questiona quem é o verdadeiro parasita do capitalismo, chegando à resistência de virarejos. Histórias que traçam um panorama poderoso sobre as pressões sociais que moldam os indivíduos.

Coringa, Parasita e Bacurau.

Embora esses temas não sejam novos, essas obras trazem um tom mais reativo e revolucionário, como gritos vindos de uma cultura resistênte. Esse movimento de empatia com os mais vitimizados ecoa em festivais como o de Tiradentes, que defendeu a criação de narrativas mais esperançosas e afetivas.

Mesmo diretores consagrados como Quentin Tarantino alinham-se a esse discurso. Em Era Uma Vez em Hollywood, ele transforma a vingança em justiça histórica, dobrando a realidade para criar finais que desafiam opressores, como em Bastardos Inglórios e Django Livre. Vingança e revolução ganham novos significados.

Ainda assim, é válido questionar: para onde vai esse ativismo? Ricky Gervais criticou no Globo de Ouro artistas por militar em premiações, e a ironia de ricos falando de problemas alheios é evidente. Protestos, como os de Kleber Mendonça Filho em Cannes de 2016, levantam dúvidas sobre a conexão desses discursos com a realidade.

Apesar disso, filmes como Bacurau e Democracia em Vertigem continuam indispensáveis, mesmo que ainda falhem na representatividade. Em 2020, a presença de mulheres e negros nas premiações permaneceu baixa, apesar de anos de luta. Contudo, grandes nomes como Spike Lee e Jordan Peele lideram mudanças relevantes, mostrando que "nós por nós" é essencial.

Ao olhar para a periferia, encontramos um cinema brasileiro mais esperançoso e revolucionário. O curta Negrume, de Diogo Paulino, representa essa nova era: identitário e transformador. Que filmes como Marighella sejam reconhecidos por suas vozes amplas e claras, não por censuras.

Que essas narrativas tragam esperança e ferramentas para um futuro mais justo.