domingo, 11 de janeiro de 2026

Herdeiro

Bruno achava uma delícia acordar naquelas manhãs de domingo ali na casa dos seus pais.

Os sons formavam uma sinfonia única. Os passarinhos competiam com motores de ônibus, carros e motos. As motos. Sempre tinha maloqueiro girando grau. Era um vizinho escutando forró e o outro ouvindo funk. Tinha pagode, gospel e sertanejo, mas todo mundo realmente escutava os cachorros. Porém, as grandes protagonistas eram as próprias casas. Suas próprias casas, quase todas em construção. Uma ópera de pedreiros em marteladas e grunhidos de serrotes sem fim. Bruno nomeava esse sentimento de Partitura dum Domingo de Manhã, e o Pai era um grande maestro.


— Olha o carro da rua passando no seu ovo!


Seu Odilon vinha construindo seu lar há mais de trinta anos. Todo seu salário formou um enorme casarão em amarelo canário. Sempre havia reformas e puxadinhos. Um quartinho que começou a ser construído ainda na década de 80 na encosta da rua de baixo, evoluiu para um sobrado, com uma longa varanda para as árvores. Na altura da avenida, tem a entrada principal, e uma garagem pequena ao lado dum salão, que primeiro foi um mercadinho da familiar e depois alugado para uma pizzaria. 


Não satisfeito, aos fundos da pizzaria, na laje da varanda, ele queria formar um “apartamentinho”, nome dado ao seu projeto de expansão. A vista dali de cima era linda, via-se o bairro completo, mais alto do que a vista da casa do Elias. No vizinho via a cratera de dentro dela, na casa dos pais, a cidade era vista por cima das árvores. 


Porém, a casa em obras do funcionário público nunca encontrava o seu fim. Evoluiu desordenada. Um lindo bosque de árvores circulava por todo o palácio, e entre a casa de cima e a casa de baixo, o salão, o porão, a varanda, o apartamento, Seu Odilon ainda pensava em fazer uma garagem para rua de baixo. Dessa vez para caber uns três ou quatro carros, ele dizia. A falta de ação empacava no paradoxo do pé de macadâmia, aquele último lá do fundo, deveria ser arrancado era o que todos diziam, e ele nem cogitava essa ideia.


— Tem árvores nesse quintal que são mais antigas que você, meu filho. — Sempre afirmava o Pai, quase sempre sujo de terra e adubo.


Ele achava realmente difícil sair daquela cama. Madeira maciça com detalhes sombreados talhados a mão, trazia à peça um toque rústico, sofisticado e elegante ao ambiente. Em verniz escuro a alta cabeceira trazia conforto e segurança, envolta de longas e fofas cobertas e travesseiros espalhados pelo colchão.


— Isso é cama de Imperador! — Bradava o pai quando apresentava o presente ao filho.


Nas trevas do aconchegante quarto do playboy da quebrada, ele acorda devagar tateando o escuro, com cuidado. Andava por entre gibis, pilhas de DVDs e livros de ficção científica espalhados pelo chão. Os posters entre o do Superman e o Homem-Aranha, indicavam o caminho até o interruptor. O colapso das pupilas eram melhor administradas quando expostas primeiro as lâmpadas de baixo lúmen, ao invés da brutal exposição ao calor solar de uma janela aberta. Já passava das 10h, e já tinha muita coisa acontecendo. Dava pra ouvir.


A benção da juventude desconhece o conceito da “ressaca”. O banho é um refresco. O céu estava azul. Dona Maria na cozinha pergunta o que queria de desjejum. Fruta e cuscuz, café com leite, suco ou chá. Tapioca, pão de queijo e queijo quente.


— Só não come muito, porque já vou fazer o almoço. — Aconselhava a Mãe.


Assistindo TV, o Pai entra em casa em tempestade. Não fala nada, só observa. Se move agitado como quem procura algo. Talvez encrenca. Ele era bom em achar isso. Não gosta de ver o filho deitado. O sol estava a pino, e ainda tinha muita coisa para construir. 


Bruno conhecia os sinais de quando um vulcão está para entrar em erupção. A qualquer momento cairiam meteoros em fúrias flamejantes que cortam todo o céu em carmim sangrando de um mundo em guerra e peste. Então à extinção:


— Você está horroroso. Seu cabelo está muito grande. Desgranhado. Melhor passar no cabeleireiro, deixar curtinho. Gente, como a gente deve cortar o cabelo a cada 20 dias, se não ficamos com muita cara de Negrão. Vai lá cortar seu cabelo. Depois de resolver isso, vamos ter uma conversa séria. Um homem na sua idade não pode estar nessa situação. Eu vi a hora que você chegou. Já era de manhã. Além de que eu já falei, que não gosto de ver você andando com aqueles moleques. Você tinha que voltar para a igreja comigo. Meu deus, como aquela época era melhor. Lembra como você era estudioso? Lia mais de dez livros por ano, pelo menos os que eu via, porque deveria ser mais quando ainda fazia engenharia. Agora está aí deitado. Mas eu posso te ajudar meu filho. Você é meu único filho, e eu daria a minha vida por você. Você não pode fazer isso comigo, me trair desse jeito! Eu sei o que você fica fazendo na rua de baixo, e eu não gosto disso… — E assim associava livremente sobre o horrível comportamento daquele filho.


Bruno sentia-se mais fraco a cada palavra do Pai. Sempre cansado. Não havia brecha para respirar. Sentia vergonha. Não de quem se era, mas do que se era observado. Um projeto falho, uma identidade reduzida, uma escolha deslegitimada. Não havia o que responder, não mudaria o discurso. Todos os caminhos do filho o levaram até aquele momento, e o trovão era ensurdecedor. Bruno sempre se escondia, imóvel, até o barulho passar. Feito uma barata pós-apocalíptica, era a única forma que encontrou para sobreviver.


O desconforto dessas recorrentes conversas e aconselhamentos que tinha com o Pai, gerava uma vontade absurda de fumar um roliço, grosso e comprido cigarro de maconha. Não havia outra linguagem que seu corpo conhecia que não fosse a dor. Nomeou a harmonia dessas escutas como: Tons de Almoço de Domingo.


De certa forma entendia seu pai. Como ele, um senhor de 60 e poucos anos do cerrado de Minas Gerais compreenderia um grupo de homens pretos e pobres fumando maconha e filosofando na quebrada em plena luz do dia? 


“Se não fosse Inhapim, Iapu‘taria melhor”, eram o que diziam. Filho nono de dez, duma fantástica história de amor entre Seu Altivo, um desses benditos caboclos que não tinham onde cair morto, e Dona Laudelina, uma das filhas do Velho Vieira, um fazendeiro da região que tinha vindo de Juiz de Fora. Era o ramo máximo da genealogia que Bruno tinha alcançado até então.


Diziam que o avô ou bisavô, um ancestral, do Velho Vieira, em algum lugar desse Brasil, laçou sua primeira esposa. Sim! Um homem sobre um cavalo, galopou por entre vales sertanejos, e jogou e amarrou uma corda em uma mulher indigena.


A fase de domesticação da espécie não é descrita no relato oral, porém tudo começou a se encaixar quando Bruno, através da história do País conheceu a figura de Marquês de Pombal, um político português que governou sob mão de ferro o reinado de D. José no meio do século XVIII. Seu principal conflito foi contra os jesuítas por acreditar que a companhia dificultava o controle da coroa no país. Reduziu a influência religiosa nas universidades e transferiu a capital de salvador pro Rio de Janeiro pra ficar mais próximo das minerações de ouro.


A história de Bruno se cruza com a história do Brasil no ano de 1757, no Diretório de Índios, quando Pombal decidiu substituir a tutela dos povos originários dos jesuítas para a administração civil. Essas leis visavam a civilização dos índigenas, proinbindo o uso de línguas nativas e incentivando o casamento inter-racial com colonos brancos que garantissem a posse de terras da coroa. Com ou sem amor, o rei distribuía terras para esses novos casais que iriam embranquecer nossa população. Nova Europa.


Com o fim das capitanias hereditárias, essas medidas do Marquês foram essenciais para a formação do território nacional. Decidindo assim a coroa de portugal, há séculos, quem seriam os donos dessas terras brasileiras. A imigração européia do Século XIX, empurra de vez os negros e pardos para as periférias das cidades, enquanto esses brancos ocupavam todo o centro de italianos, japoneses, espanhois e outros mais.


Talvez daí tenha vindo essas terras Vieiras, e toda a novela que se enrola do relacionamento dos seus avós. Casada a contragosto do pai, Dona Laudelina pega suas terras por direito, e dá nas mãos do caubói Altivo sua administração. Mas o que os cavalos entendem de pulgas? A família se muda pro Paraná em busca das terras vermelhas, e caem num golpe de plantação de amendoim. Esses Vieiras da Silva perdem tudo, levando ao declínio e colapso mental dos avós.


Seu Odilon era fruto do milagre brasileiro. Foi para São Paulo nos anos 70. Saiu da roça e foi morar com Tio Daniel, um irmão que já morava na Capital. Trabalhou, comprou um terreno em Morato, foi despedido, trabalhou mais e comprou seu apartamento da Zona Norte. Seu santo Graal, símbolo do sucesso do trabalho árduo e a resposta pra pergunta:


— Se eu consegui, porque você não consegue?


Nem chegou a morar no apartamento sozinho, pois logo conheceu Dona Maria, que na época era apenas a Senhorita Maria. Formosa de cabelos cacheados longos e olhos esbugalhados. Foram morar juntos e quando seu Odilon ficou desempregado no começo do governo Collor, fugiram pra Morato. Assim não iria pagar o valor do condomínio, e enquanto procurava outro emprego, ainda ganhava o aluguel, que ajudava a quitar o próprio apartamento. A vida andou. Morato absorveu todos eles para uma nova órbita. 


— Quando as coisas melhorem voltamos pro apartamento!


O Pai sempre almejou o retorno ao topo do prédio. Sempre desprezou a periferia, mas se aproveitava dos custeamentos dela. Ele não gostava da pobreza que sujava seus sapatos. Sentia-se superior. O elegante senhor da casa grande amarela do Casa Grande I. Funcionário público e respeitado pela comunidade. Mesmo assim, rejeita a cidade dormitório enquanto dorme nela.


O cabelo raspado era o único escudo que tinha contra um mundo de violência. Mesmo assim não levava em consideração todas as dificuldades que teve de se manter em São Paulo, vide o próprio desemprego, e inúmeras histórias de rasteiras corporativas que o Pai já contava em tom de confissão.


— Já tive um chefe que não gostava de preto.


Bruno entendia a preocupação do Pai. Ele veio de origem pobre, tem medo de cair em desgraça novamente. O Pai enche tanto o saco, pois apenas está preocupado com a carreira do Filho. Ele não entendia sobre o descolado mercado do audiovisual e da comunicação. Para ele, não ver mais o filho engenheiro era uma derrota do sonho de ascensão. Um vagabundo. A esperança ia esfarelando, em cada entrevista que ia. A zona sul nunca lhe parecia agradável.


— Quais chances de fato existem em mim? — Assombrava Bruno sobre seu próprio fim.


Reclamava do elitismo dos detentores dos meios de comunicação e lia artigos sobre aquele desmonte da ANCINE, lembrando o tal ano de 92, onde produzimos menos de cinco filmes no país, comparados à média de quase cem na década de 70, tudo devido ao programa Nacional de Desestatização lançado por Collor na Embrafilme, A produtora estatal que distribuiu centenas de filmes nacionais, que logo foi extinta.


Sem a Embrafilme, a produção nacional ficou à míngua, desamparada num mercado predador dominado por filmes estrangeiros, sobretudo norte-americanos. Eram tempos de glória para os ignorantes, e cólera para todo o resto.


Achava engraçado o fato da figura do Caçador de Marajás, interromper a vida do jovem tantas vezes. Seja pela crise econômica que fez sua família se mudar de cidade, seja pela crise econômica que moldou a forma atual de como se configura a área profissional que Bruno escolheu trabalhar, desse vácuo se explicava sua dificuldade em se ver na tela, mas também, porque quase seu nome foi Fernando, porém, exatamente pelas acusações de corrupção e escândalos que levaram ao impeachment do presidente da república, que o Pai não gostou da associação desta sugestão.


— Nascemos para ser cabeça, meu filho, não pra ser rabo! Olhe sempre pra cima!


O filho sempre odiou esse bordão. Dava a entender que existiam classes, e assim deveria se manter. Se você não fosse da classe dominante, você seria quem limparia a bunda dessa nobreza. Uma busca ingrata que não ousa questionar: “E se todo mundo limpar a própria merda?”


Assim, ele se esgueirava por entre o caminho possível do meio termo. Sabia que o Pai odiava sua associação com os meninos do Coletivo por mera conveniência apresentada pelo racismo, e ficava puto do Pai não conseguir enxergar tudo que ele, quanto coletivo estava produzindo, o filho estava sendo pago via editais públicos pelo seu trabalho. Ele estava tirando foto, editando vídeo, produzindo arte. Realizando seu sonho como produtor audiovisual, mas de nada parecia saciar a fome do abismo pelo mais valioso ouro. Assim como um a sombra de um jovem marajá.


Daí estava um paradoxo. Qual diferença tão incômoda que o Pai insistia em sentir entre o asco a um sarau na quebrada mas aplaudia pinturas europeias num museu? Não aceitava compreender que o racismo também maltratou aquele preto velho de tal forma que a força que emergiu dali era o auto ódio. — Negros Malditos.


— Não escute seu pai meu filho. Ele está com a cabeça cheia. — Dizia a Mãe tentando acalmá-lo. — Seu Pai ainda não te contou, mas lembra do seu tio Daniel?


— O irmão dele que desapareceu?


— Pois então… Encontraram ele. Acho que uma prima sua que mexe com essas coisas de aposentadoria encontrou ele num asilo perdido no interior. Tá com começo de demência.


Depois que os dois moraram juntos, ele se mudou pra Campinas, e de lá desapareceu. Nunca mais ninguém da família teve contato nem sabia por onde ele andava. O Filho chegou a escrever uma cartinha pro Gugu, mas Seu Odilon dizia que quando a gente quer sumir, e quem não quer ser encontrado, não tem quem encontre. 


Os três foram visitar o tio. Cara comprida, de índio velho, cabelo liso, branquíssimo e sempre penteado. Falava pouco, parecia triste, com olhar vazio, cheio de mágoas, lembranças e amores. Ele nunca casou, não teve filhos. Um homem duro que nunca pode ser fraco. 


Era visível em seus olhos as histórias perdidas daquilo que já foi um homem. O idoso era um presságio do que acontece com um homem preto que tenta aguentar tudo sozinho, e por fim acaba esquecido num asilo. Tentava acessar aqueles olhos castanhos, e assim como um editor, decupar os brutos das cenas que formavam o filme da sua vida, porém dali só se encontravam mídias corrompidas, que mal geravam um teaser do que o tio já pode ter sido e o que ele deixou de ser ao se afogar em suas próprias mágoas e ressentimentos..


Bruno observava o Pai e tentava compreender. Seu Odilon se frustrava com as confusões do irmão. Queria ter conversas com ele que não poderia mais ter. Tio Daniel afirmava ainda ter seus pais vivos, além de muita raiva de um irmão dos irmãos. Quando perguntado quem era esse irmão, o tio sempre se perdia ao lembrar de seu específico nome, porém parecia pontual em seu sentimento:


— Eu tinha muito irmão. Todo mundo me esqueceu. Fiquei sozinho.


O retorno do tio representava para seu velho a retomada das suas origens e o abismo do seu próprio fim. O começo na roça e o fim na cidade. A semente da primeira árvore e o primeiro bloco de sua mansão. Muros de uma história entre os dois que Bruno sabia ser impossível acessar totalmente, talvez perdida em inúmeros dizeres não ditos.


— Seu tio me tratava bem. Seu pai não gostava porque às vezes ele roubava a mistura dele na geladeira. Mas ele sempre devolvia! Seu tio era muito honesto. — Recordava a mãe quase que anestesiada pela conexão àquela memória. — Lembro de uma vez quando estávamos sozinhos ele disse pra me separar do seu Pai. “Ele não presta! Ele é Ruim!”, saia resmungando falando mal de tudo por aí haha…


Dona Maria termina de lavar a louça e guardar as panelas. Depois do almoço era sempre preguiçoso. O som da construção já havia voltado, e o sol estava mais fresco. Ela prometia que daqui a pouco iriam comer queijo fresco com um cafezinho. Sempre lembrava da sua terra em Minas e vivia cobrando Bruno para ir visitar seu Irmão. Ele não prestava muita atenção. Mimado, assistia TV como quem não olha o mundo.


— Vem comigo lá embaixo meu bem? O pé de limão está cheio. — Bruno gostava do plano. Dentro de casa estava frio, seria bom tomar um ar fresco com a Mãe. — Vem, vou lá pegar os baldinhos pra gente colher.


O Umbuzeiro foi um tipo de paraíso terrestre que sempre existiu no imaginário de Bruno. Um vilarejo do norte de minas. Tem esse nome pelas antigas canções de pomares repletos da fruta agridoce da região. Um Oásis. A sabedoria popular a chama de árvore sagrada do sertão, do tupi-guarani, árvore que dá de beber. O território pertence à cidade de Lontra, que também tem esse nome pela quantidade absurda que tinha do mamífero semiaquático.


Era uma viagem longa, muito longa. 17 horas de viagem ou mais. Mãe e filho fizeram muitas dessas viagens para o sertão. Bruno ainda criança via uma terra seca, gente pobre, porém era interessante ouvir a mãe em suas lembranças e descrições eram contadas sempre em tom de amor e ternura. Um conhecimento diferente do que ele aprendia na faculdade, do que o Pai exigia que fosse a principal fonte de conhecimento. Como aquele lugar tão árido dava tanto para beber?


Diziam que nasceu na beirada do Rio, próximo do olho d’água e afastado do vilarejo. Algumas famílias que não tinham dinheiro viviam ali, e só subiam para fazer negócios. Filha de Seu Manoel Dô, um caboclo do mato e da estrada, um provedor errante e de força prática, e Dona Amélia, uma filha da mata, mulher-ambiente. Um povo antigo daquela terra. Chamavam de Porão.


Esse lugar não existe mais. O tempo já levou até a última estrutura daquele espaço. Todo mundo começou a subir pra vila quando chegou a energia elétrica. O que parece absurdo, nada mais é do que a história do êxodo rural brasileiro, e no meio da encruzilhada se encontrava Bruno, aquele garoto mimado com um sonho tonto, surdo ao escutar todas as suas expectativas contrárias porém já sem fé e cego de seu destino.


— Esse limão daqui é chique, é limão siciliano, é bom pra salada. Uma vez eu fiz doce, e na receita vai muito açúcar, né? O diabete do seu pai foi lá pra cima. Hahaha. 


Além daquele tempo, Bruno alcançou seu tão sonhado sucesso profissional. Num restaurante chique de frente pra praia, lembrava daquele dia debaixo do pé de limão, e comparava o preço de três cigarros por um real, e o valor da porção de Vieiras que estaria experimentando pela primeira vez.


As Pecten Maximus, assim como ostras e berbigões, são moluscos encontrados em abundância nos mares do norte da Europa. Suas conchas coloridas são disputadas por colecionadores, e na vida selvagem é o único molusco bivalve migratório, capaz de se mover, sendo conhecidas como nadadoras ativas de águas geladas. Ficaram conhecidas pela sua representação no Nascimento de Vênus de 1483 de Botticelli.


Ele sempre achou curioso o estudo da origem dos nomes. Antigamente, apenas os mais nobres tinham nomes de família, enquanto os plebeus usavam sobrenomes para se diferenciar dos outros pela profissão, pelo que plantavam e produziam ou pelo local de origem. Foi assim que surgiram os "Ferreiras", "Oliveiras", "Pereiras", "Ribeiros" e tantos outros.


Não precisava nem ir para longe pra essa análise. Ainda associamos a identidade dos filhos a dos seus pais, como quando alguém mais velho pergunta: "você é filho do João?", ou em inglês, o Johnson.


Dizem que os "Santos" eram os judeus que se converteram cristões, e que "Silva" remete à palavra "selva", um sobrenome muito difundido entre imigrantes que queriam se desvincular da Europa, ou escravizados e pardos bastardos dos senhores de engenho. No podcast Mano a Mano, o cineasta Jeferson De Rezende contou que abandonou o "Rezende" por causa da origem escravocrata dessa região do Rio de Janeiro, adotando assim seu nome artístico: Jeferson De.


Numa leve pesquisa, Bruno encontra o brasão da família: estilo Game of Thrones, fundo vermelho com conchas amarelas. Os Vieiras nasceram em uma região de pescadores da Galícia, no norte de Portugal, e hoje é o 20º sobrenome mais frequente no Brasil. Curiosamente ou não, também os sobrenomes fraternos do Pai e da Mãe. Em ambos havia o Vieira.


Dona Maria, com seus pés empoeirados do Umbuzeiro, cozinhava arroz com pequi no fogão à lenha. Os Ramos das Rochas, que vem dos pais dela, apareceram entre as folhas das Vieiras orgulhosas da fazenda Boa Sorte, Iapu.


Bruno pergunta pra sua mãe como que o nome de uma família de pescadores da Idade Média Europeia, foi chegar no meio do sertão de Minas Gerais. Ela que foi pra São Paulo procurando uma vida melhor e parecendo saber daquele molusco que se move, gentilmente respondeu:


— Pois é, meu filho, as coisas andam. Sempre andam.