sábado, 3 de janeiro de 2026

Medalha

Deveria ter uns oito. Nada mais que isso. Duas palmeiras assanhavam a fachada do sobrado amarelo com a chegada da perua escolar. O deslizar da porta era quase tão rápido quanto o pulo pra fora da van. Arrastava a mochila ao desviar do portão entreaberto e pulava por entre os degraus da escadaria lateral, rumo aos fundos do pomar.

A construção em declive descia pelos cômodos até a cozinha. Uma janela revelava o som da TV ligada no centro da sala de estar. A panela de pressão chiava vapor por entre as folhas das árvores do quintal marcando a luz do outono. Aqueles primeiros cachorros corriam pelo quintal, brincavam, e o Pai, aos fundos, ajoelhado na terra debaixo do pé de macadâmia, cavava como se brigasse com o chão, à sombra daquela mansão.


A Mãe, feliz com a chegada, criou uma recepção de beijos carinhosos. Porém, logo foi desviada pelo vulto infantil que cruzava o terreno carregando algo valioso em suas mãos. Uma grossa e fina fita de cetim carmim escorria leve por entre seus pequenos dedos ao vento. A Criança ria.


Era sexta. Talvez um feriado ensolarado. Um desses poucos dias bucólicos que ficam marcados entre os mais profundos e antigos pilares da consciência. 


O Pai sempre foi um homem forte. Corpulento. Suor frio escorria pelas têmporas. O suspiro, impaciente, analisava uma enxada árdua ainda por começar. Um olhar quase único, rotineiro, de quando se via pensando naquela casa grande, ainda em rascunho. Plantava árvores como quem erguia paredes. Gabava-se em dizer que muitas dessas eram mais velhas que o próprio filho. Seu pequeno bosque.


A Criança em orgulho, levanta as mãos contra o sol em revelação: Uma medalha de bronze. Derramava alegrias ao cantar sobre como, entre tantos outros alunos, havia conquistado reconhecimento no arremesso de peso daqueles jogos interclasses do colégio.


Em pausa, o Pai interrompia o trabalho com um olhar ao redor, como quem procura água ou descanso. Aos olhos dela, ele reflete:


— Significa que tiveram dois melhores que você.


O tempo virou. O vento anunciava chuva. O feijão gritava na pressão, anunciando o almoço quase pronto. A Mãe, da sala, gritava ao filho que deveria passar algum filme legal à tarde na TV. Os cachorros começaram a latir. Aquele peso que antes era arremessado, agora afundava inteiro como num metal pesado.


A Criança então, entrou no casarão.