No princípio era o verbo.
A primeira Ideia
dentre toda a história das ideias.
Mitológica.
Da ordem arquetípica
daqueles sentimentos perpétuos.
Num mar inquieto,
reflito o que não vejo
mas o que quero.
Um cego que não se enxerga
mas que sempre mergulha,
se afoga,
e resurge seco.
Amar.
Infante guiado - Amor enganado.
Cuidado.
A ideação e idealização.
Daquilo que me vejo,
delírio e elogio
do que me falta - ao avesso,
tenho sede
que escondi de mim.
Sempre mudo de assunto,
...enfim.
Mas tu és aurora.
Nova história mal contada,
um velho conto de fada.
A rara lenda
dos salões erguidos do silêncio,
que já ouvi em mil.
E mesmo que nunca te vi,
sem rosto,
me arrepio.
Finalmente,
serei então bem visto -
mesmo que escondido - Maldito.
Portanto,
imputo a ti,
todos os meus encargos,
daqueles que nunca quis cumprir
com medo de me conhecer:
Gerencie o projeto de me completar.
É simples,
não dá para errar.
Só te peço, porém,
que não te falte coragem
de me compreender
ao mirar vulnerável
aquele que rasteja atrás desta bravata
do herói que nunca existiu.
Mesmo assim, de noite,
com lâmpada trêmula,
ascendeu a luz do desejo
de ver o rosto do meu amor.
- O espelho racha
e enxergo ardor:
Se incendeia o véu do culto que te fiz.
Ao cair da escadaria do pedestal,
no julgamento do último sol,
- me vi só.
Voltei então ao meu labor.
Colhi entre espinhos o trilho perdido,
Desci. Despi.
Dos ecos que me gritavam
criei cantigas de louvor a mim.
No vazio da musa
que nunca existiu - finalmente,
meu olhar me viu.
Nunca foi pessoa -
projeitei.
Nunca teve corpo -
fantasiei.
Porque, na sombra de quem sempre fugiu,
meu escuro
me fundiu.
Tirei a venda,
assombrei a lenda.
Acendi uma tocha na tormenta
e pude finalmente beber
da fonte do prazer de amar
sem altar.