quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A Musa

 No princípio era o verbo.

A primeira Ideia

dentre toda a história das ideias.

Mitológica.

Da ordem arquetípica

daqueles sentimentos perpétuos.

Num mar inquieto,

reflito o que não vejo

mas o que quero.

Um cego que não se enxerga

mas que sempre mergulha,

se afoga,

e resurge seco.

Amar.

Infante guiado - Amor enganado.

Cuidado.

A ideação e idealização.

Daquilo que me vejo,

delírio e elogio

do que me falta - ao avesso,

tenho sede

que escondi de mim.

Sempre mudo de assunto,

...enfim.

Mas tu és aurora.

Nova história mal contada,

um velho conto de fada.

A rara lenda

dos salões erguidos do silêncio,

que já ouvi em mil.

E mesmo que nunca te vi,

sem rosto,

me arrepio.

Finalmente,

serei então bem visto -

mesmo que escondido - Maldito.

Portanto,

imputo a ti,

todos os meus encargos,

daqueles que nunca quis cumprir

com medo de me conhecer:

Gerencie o projeto de me completar.

É simples,

não dá para errar.

Só te peço, porém,

que não te falte coragem

de me compreender

ao mirar vulnerável

aquele que rasteja atrás desta bravata

do herói que nunca existiu.

Mesmo assim, de noite,

com lâmpada trêmula,

ascendeu a luz do desejo

de ver o rosto do meu amor.

- O espelho racha

e enxergo ardor:

Se incendeia o véu do culto que te fiz.

Ao cair da escadaria do pedestal,

no julgamento do último sol,

- me vi só.

Voltei então ao meu labor.

Colhi entre espinhos o trilho perdido,

Desci. Despi.

Dos ecos que me gritavam

criei cantigas de louvor a mim.

No vazio da musa

que nunca existiu - finalmente,

meu olhar me viu.

Nunca foi pessoa -

projeitei.

Nunca teve corpo -

fantasiei.

Porque, na sombra de quem sempre fugiu,

meu escuro

me fundiu.

Tirei a venda,

assombrei a lenda.

Acendi uma tocha na tormenta

e pude finalmente beber

da fonte do prazer de amar

sem altar.