25 de dezembro de 2013

Afinal, é Natal

Inspirado livremente na obra Noite Feliz de Wallace de Andrade.

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Era noite de natal, e pela primeira vez na vida D. Áurea estava passando sozinha. Estava um pouco deprimida vendo o show do rei porque aquele ano não foi um dos melhores para ela.

Casada por 59 anos, Seu Juvenal, querido marido, faleceu dias antes do seu aniversário. Foi um horror. Durante esses 59 anos, tiveram somente um filho. O viu crescer, ganhar prêmios nas feiras de ciências da escola, primeira e segunda namorada, casamento, divórcio e prisão.

Sem ninguém próximo para passar a noite, D. Áurea tentou esquecer todos os problemas daquele ano e aproveitar o show. Afinal, é natal.

Wellington foi preso por não pagar a pensão do filho. Estava passando por uma má fase na vida. Shirley, sua esposa, um dia sem clima nenhum disse que não estava mais feliz e pediu o divórcio. Para melhorar seu pai morreu, entrou em depressão, começou a faltar no emprego, foi despedido, o dinheiro acabou e ali estava: Presidente Venceslau.

O carcereiro de cela em cela estava passando, como de costume todas as noites para fazer a contagem dos presos. Viu que naquela noite quem estava na função era Seu Oscar, o carcereiro mais gente boa da cadeia.

- Poxa seu Oscar, libera o cadeado aí vai. minha Mãe tá sozinha lá em casa. Afinal, é natal. - Brincou Wellington.

Seu Oscar deu risada da brincadeira do preso, mas estava com a cabeça em outrolugar, sua família, tão distante dali, ceiando sem ele.

Seu Oscar estava no sistema carcerário há quase sete anos. A vida era tranquila. Trabalhava noite sim noite não, sete anos sem faltar. Nesse ano foi escalado para trabalhar na noite de natal. Quase chorou para o chefe liberar ele, mas não teve jeito.

Chegou as 7 da noite, e só ia sair às 7 da manha. A noite ia ser difícil, Afinal, é natal e os reclusos ficam loucos de saudade da família. Alguns fogem e voltam no outro dia, outros badernam e outros sofrem calados.

Aquela escala o apunhalou pelas costas. Estava planejando aquela festa de natal deste outubro. Estava vindo parente do Oiapoque ao Chuí. A casa do seu Oscar estava cheia, e por um instante ficou com dó de sua esposa, porque teria que aguentar a noite inteira o pequeno filho da vizinha.

Joãozinho nunca viu a casa do seu Oscar tão cheia. Passou os dez natais da sua vida na casa do vizinho brincando com Pedrinho, filho de seu Oscar da mesma idade. Eram unha e carne, quase irmãos. Ainda mais naquela noite tão especial, afinal, é natal.

Embora muito pequeno para entender, Joãozinho era de família humilde, e ficou maravilhado com a quantidade colossal de presentes que seu melhor amigo estava ganhando naquela noite. Lembrou que pediu presente para o Papai Noel, mas pelo visto, tinha esquecido dele daquela vez. Deu um sorriso amarelo, e aproveitou o Chester quieto.

O natal é uma data de grande alegria, e embora nem todo mundo estivesse tão alegre naquela noite, tentaram esquecer seus problemas por algumas horas. Afinal, é natal.

12 de novembro de 2013

Politicagem Imoral

Se tinha uma coisa que deixava Joaquim feliz era ajudar seu país a ser um lugar melhor.

A manifestação contra a corrupção foi uma das mais cheias que o jovem manifestante já viu. Todo o povo feliz com o rosto pintado de verde e amarelo cantando o hino nacional e gritando contra um ou dois senadores que foram pegos tentando desviar dinheiro público para algumas ilhas do caribe.

Naquela manifestação Joaquim estava sozinho, sem seus amigos revolucionários, que disseram que dessa vez iam ficar manifestando pela internet. Joaquim não gostou da atitude deles, e fez questão de tirar várias fotos e postar em todas suas redes sociais para mostrar como ele era realmente ativo com a politica nacional.

Com sede, depois de tanto ativismo, resolveu passar em um bar e pediu uma garrafa d'água:

- 3 reais - disse a atendente que estava com um crachá escrito "em treinamento" com letras garrafais, mas que em lugar nenhum estava escrito seu nome.

Joaquim tirou de sua carteira uma nota de 50, a única nota que tinha.

A atendente trouxe a água e seu troco, que logo Joaquim conferiu, e percebeu que ao invés dela ter devolvido 47 reais, ela devolveu 97. Seu troco, mais a nota que Joaquim acabou de tirar da carteira.

O jovem viu que a atendente já estava com outro cliente do outro lado do balcão.

Ele pegou sua água, deu um longo e gostoso gole e foi embora satisfeito, porque naquele dia ele fez sua parte com a mudança do país.

7 de novembro de 2013

O Mais Miserável Manifesto Artístico de Todos os Tempos - vol. I

E hoje mais uma vez fui criticado sobre as coisas que escrevo e publico.

Pois logo disse que ele não faz ideia das coisas que escrevo, e não publico.

Me veio com argumentos politicamente corretos, e disse que simplesmente não tem graça, ou que não faz sentido algumas coisas que eu escrevo.

Disse que era crime!

Palavras de preconceito... puff.

Afinal, o que veio primeiro?

O crime ou a piada? A piada ou o crime?

Acho que a seguinte questão é: do que posso falar, e do que não posso falar?

Expressão artística não é desculpa!

Na livraria vi um livro chamado "isso é arte?" discutindo essa bendita arte contemporânea que vivemos.

E outro dia vi um jovem que perdeu a virgindade anal em nome da arte... Pois é, cada um expressa do jeito que convêm.

Sério, sabe o que eu acho?

Acho que posso falar de tudo e de todos.

Afinal, são os meus pensamentos, minha forma de pensar. E se uma piada não deu certo pode ter certeza que não foi feita num sentido depreciativo.

O difícil é declarar algumas coisa num mundo onde a linha do humor e do crime seja tão tênue.

Alias, a expressão "humor negro" já algo racista.

Porque o humor que não presta tem que ser o negro? Não poderia ser o caucasiano ou o índio?

"Humor da raça ariana - o melhor"

Bendito (ou maldito) seja o SIR. Monteiro Lobato: Preconceituoso do caralho que todos aplaudem.

Sim sim, outros tempos.

Eu sei.

Chega!

Alias palavrão agrega ou não grega valor?

Alias, o que agrega?

Nos meus humildes pensamentos, arte é uma forma de expressão do sentimento, seja ela feita em qualquer uma das nove plataformas citadas por Claude Beylie.

Um jeito de contar uma historia.

O que eu faço?

Eu escrevo.

Expresso sentimentos por palavras (por mais ruim que seje meu português).

Para no final, eu ser julgado sobre o que é licito e o que não é licito dizer?

Argumentos como os citados, são os mesmo que comediantes, deputados e organizações nazistas e racistas usam para disseminar seu ódio, e daqui retorno a questão cerne: o que veio primeiro, o crime ou a piada?

Pois é jovem gafanhoto, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

ontem, por exemplo, descobri que tenho um amigo que morre de ri com qualquer piada xenofóbica que lhe é contada.

QUALQUER UMA!

São todos argumentos sobre ser livre, sem interferir na liberdade do outro.

tsc tsc.

Mas o que eu, escritor amador de merda, que nem domina o básico da língua portuguesa quer falando disso tudo?

Do que estou querendo me defender se nem as pessoas que mais importo lê o que eu falo?

Nem meus pais, nem meus primos, nem meus melhores amigos, minha namorada e meus colegas de bar... Ninguém.

Não escrevo pra eles, mas como já diria Chris McCandless - "felicidade só é real quando compartilhada".

Arte, arte, arte. Mas que desculpazinha esfarrapada!

Isso é arte? (além do titulo de um livro vendido por apenas 59,90 na livraria cultura para clientes +cultura). O que é arte?

Liberdade de expressão vai ser o que o juiz vai me responder em tribunal. Tentei aqui dar um manifesto, e falhei miseravelmente, onde não consigo nem me expressar sem ofender alguém, e não chegar a uma conclusão sobre o que pode e o que não pode.

Quantas questões.

Sempre é mais fácil desistir.

Afinal, porque eu tanto escrevo então?

Pra quem?

9 de setembro de 2013

Corrida Paulista

Tua pressa te fez atropelar uma criança de 7 anos na escada rolante.

O horror que as cidades fazem com vossas cabeças, a desvirtualização do conceito temporal, fazem clamar por um real dia de 30 horas, oram para que não seja apenas um slogan bobo qualquer.

Tua pressa te fez atravessar correndo a rua no farol vermelho.

Ela, tenta pateticamente dar tempo ao tempo, com tais sinais coloridos, filas e pagamentos, mas a maceta multifuncional que a selva cinzenta trás, nos tira a paz e o tempo.

Recorrente e corriqueiro, nos esquecemos de respirar. 

Apenas pois estamos sempre com pressa. Pressa que nos mata de fome, e alimenta nosso corpo. apenas o corpo que sempre corre com pressa.

26 de agosto de 2013

Uma Conclusão

A conclusão é que não existe conclusão. Terceridade.

A metafísica é estudar o estudo, a eterna busca pelo conhecimento. Assim o decodificar é divido em três estágios: Interpretante imediato, dinâmico e o final.

O interpretante imediato é a própria mensagem. O interpretante dinâmico é a interpretação que se tem desta mensagem. Semântica e semióticamente falando. E o interpretante final, chamado também de terceridade, é a conclusão que tiramos desta mensagem.

Pierce, um teórico da comunicação, diz que tal conclusão não existe, pois um signo sempre leva a outro, e outro e outro e etc. assim o processo de pensamento nunca chaga ao fim, nunca concluindo um interpretante. Logo a própria terceridade não existe.

Interprete certo ou continue pensando.

9 de agosto de 2013

Nostalgia do Não Ocorrido

As melhores histórias 
nascem sempre do indagamento
do "e se...?".

Juntando todo grão de areia 
e gotas do mar, 
não daria pra contar a infinidade
que um fato modificado poderia transcorrer.

Pela tortura ou alegria, 
o diabo teve a ideia do impulso. 
Vendo que era boa a criou.
Na tentativa de apaziguar, 
deus criou as desculpas, 
mas com pressa e medo de não ficar pra trás, 
tal não ficou perfeita.

Assim, quem julgará um impulso não desculpado?
Ou quem gozará de um bem sucedido?

Pois dessas perguntas nada me incendeia, 
apenas as firulas das expectativas.

7 de julho de 2013

Manual do Suicídio Politicamente Correto

Qual é o sentido lógico do suicídio?

Entendo que às vezes a vida pode estar muito ruim, por milhões de problemas sortidos, mas desistir da solução não passa de preguiça intelectual.

Quando alguém se mata por amor, sempre se escuta: “mesmo com tantos peixes no oceano”. Se matar por amigos tem a clássica: “amizade só de pai e mãe”. Quando é por muitas dividas, todo mundo topava emprestar dinheiro; e quando são problemas familiares todo mundo concorda que “não foi por falta de amor”.

A questão é que temos que aprender a viver sozinhos, porque quando pensamos em acabar com a própria vida, é porque temos problemas que quase sempre não são nossos.

O fato é que todo mundo um dia já pensou nisso, e não soube como, ou não teve coragem.

Um brinde ao nosso medo, se não a população mundial seria bem menor hoje em dia. E caindo.

Uma corda no pescoço é muito bruto e claustrofóbico, além da visão para quem ver não seja nada bonita. Se jogar de um prédio também é complicado para quem for te limpar depois, assim como pular na frente de um trem ou carro, sem contar o transito que seu corpo morto criará.

Talvez o mais recomendável seja veneno. O grande sonho da maioria das pessoas é morrer dormindo, pois então veneno é uma grande ideia. Para quem gosta de álcool, tranquilizantes com vodka sempre é uma boa pedida.

Mas de qualquer forma, ainda não faz sentido acabar com a própria vida, seja por problemas ou curiosidade post mortem. Por pior que seja a vida, ainda tem-se chance de uma leda melhoria. Significativa ou não, quase nada sempre é melhor que o nada.

Se todos esses conselhos não ajudam, escreva uma boa carta, nada muito choroso, nem culpando ninguém (isso é muito feio e antiético), e aproveite os remédios.

26 de junho de 2013

Vox Popularis

Manifestai-nos
cria-te coragem
saímos às ruas
gritar contra
o sistema americano liberal.

Manifestai-vos
pela força pública,
pelo real conceito de democracia,
pela expressão livre
pela manifestação.

Pelo tom subjetivo do poder
não estamos em revolução
não somos manifestantes,
somos os governantes,
cansados de baderna e vandalismo.

Proletários de todo o mundo, uni-vos!

22 de junho de 2013

Sentimentos da Primeira Noite de Inverno

Quebrar o braço daquele filho da puta.

“E aí troxa”, foi o que ele disse pra mim.

De pau duro pela Elisabete,
Heloise, Maitê, Marilyn Renata, Vanessa.

Já está tarde e amanha quero acordar cedo.

Camila foi minha primeira tentativa de começar algo certo,
Andressa é a segunda, e de novo tudo tá dando errado.

Eu o traí? O gordo?
Por isso que me chama de troxa?

Me traiu. Quebrar o nariz daquele filho da puta.

Não é pelo sexo, é pelo frio.

Uma vez me disse que o frio é falta de amor.
Fodeu, porque o inverno começou.

Adorava passar a noite bebendo cerveja, mas agora se entorpecer não faz mais sentido.

Só sei que está frio, e amanha quero acordar cedo para sair do ócio, e fazer algo.

Amanhã é sábado, tem culto, me lembra da infância.
E aqui vai mais uma tentativa de fazer algo de bom. Com ela não deu.
Antes, com a Camila, não deu.
Hoje, com Andressa, também não está dando também.

Só quero ver aquele filho da puta sangrar.

Pensei em me juntar com o gordo, para bater naquele filho da puta.
só por diversão. Só pela dor.
Mas ele não gosta de mim. Hoje me chamou de troxa.

Ainda estou com o gosto da cevada. Sem graça.

Só sei que está tarde, e amanha quero acordar cedo.

Uma vez ganhei uma medalha de bronze numa competição qualquer na escola.
Meu pai olhou e disse:
muito bom, mas teve dois melhores que você.
Isso não foi um incentivo.

Quero quebrar a perna daquele filho da puta.

Está frio, e hoje é a primeira noite de longo inverno.

Estou sozinho e com raiva do passado.
Me apego a memórias, mas também fico irritado com elas.
E o pior é saber que tudo piora no inverno.

Só sei que está tarde e frio, e eu vou dormir.

12 de junho de 2013

Festa em Família

Baseado no conto Feliz Aniversário de Clarisse Lispector.

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Quando o despertador tocou naquela manhã de domingo Dorothy já estava acordada. Era um dia especial pra família toda. Sua vó fez 89 anos naquela semana, e resolveram fazer uma festa naquela tarde de domingo. Um almoço com um bolo e salgadinhos e quem sabe se divertir um pouco com a família. Mas sua família não era assim tão feliz.

Essas festas em família sempre fora o centro de grandes discussões e brigas. As principais personagens são as esposas de seus tios que se odiavam. Já houve até divórcios em outros aniversários por causa de ciúmes. Ela nunca entendeu o motivo dessas brigas, mas tanto faz, Dorothy gostava de vê-las brigando seja por ciúmes ou por inveja. Dorothy não gostava de nenhuma delas.

A tia Denise por exemplo, esposa do tio José (que por acaso é sócio de seu pai nas lojas de construções da cidade), sempre usa aquele colar de perolas falsa com um vestido preto ou branco sem graça, e não para de repetir que ela colocou o original num cofre de banco, e que usa aquela copia para enganar bandidos.

Dorothy, no alto de seus 13 anos sabia que aquilo era mentira, e que Denise só falava disso para se gabar dizendo que tio José é o único filho que seu deu bem na vida. O que também é uma mentira, já que escuta seus pais quase todo dia dizendo que ele está se endividando muito com aquele carro amarelo horroroso que ele comprou.

Enfim, Dorothy adorava essas festas por causa das brigas e também por causa da comida da tia Zilda. Ela cozinhava muito bem. Seu pai sempre dizia pra ela abrir seu restaurante, mas Tia Zilda não tinha tempo. As vezes Dorothy ficava com dó dela, a única mulher da família, e ainda tem que cuidar da vó, uma mulher que o tempo deixou-a amarga. E foi assim que a viu quando entraram pela porta da sala, depois de subir 3 andares de escada, já que o elevador estava quebrado, de novo.

A casa já estava bem cheia quando chegaram. Muitos primos e vizinhos. Cumprimentou a nora de Ipanema, uma mulher de poucas palavras sentada no canto da sala conversando com a babá dos meninos... Dois pestinhas.

Em seguida queria ir embora, mas seu pai a obrigou a cumprimentar a vó, não queria ir porque morria de medo de encara-la por muito tempo. Chegou perto e estendeu a mão:

- Benção vó!

A vó olhou de canto de olho e resmungou alguma coisa que não deu pra entender. Olhou pra trás um pouco desesperada, e o pai lhe deu um olhar de reprovação, então ela resolveu puxar um papo qualquer para descontrair:

- Poxa vó, esse prédio está um caco hein! Acho que ta na hora da senhora e tia Zilda saírem daqui... A prefeitura vai demolir isso um dia ou outro!

Dessa vez a vó apenas bufou em fúria. Percebeu que falar disso era pior do que as tentativas sem graça do tio José e de seu pai de fazerem piadas. Olhou pra trás de novo procurando a ajuda do pai, mas ele já estava falando com o tio José sobre as lojas, e quando eles começam nada os impedem. A não ser o olhar raivoso de sua mãe, mas ela deve estar ocupada na cozinha ajudando a tia Zilda.

Indo em direção à cozinha, viu que era verdade. Roubou um croquete da ajudante da tia, e desceu as escadas para ver se tinha alguém de mais interessante lá em baixo.

Chegando lá tinha apenas os dois meninos, aqueles que estavam com a mãe e a babá. Eles estavam no canto da parede com um copo não mão.

- Onde está seu pai? Ainda não chegou? – Perguntando puxando assunto, e também estava curiosa porque o pai deles era lindo.

Assustados jogaram o copo fora, e saíram correndo escada a cima.

Dorothy chegou perto, e cheirou o copo, e não acreditou que dois garotos de 5 anos estavam tomando vinho escondido. Sozinha ficou ali sentada um pouco pensando na vida, vendo mais alguns carros chegarem, mais pessoas subirem a escadas até que desceu também o seu primo Júlio.

Ele era mais velho uns 4 anos, e era lindo. Ele era muito inteligente, e Dorothy era louca para dar um beijinho nele, mas ele não dava muita bola pra ela, talvez por ser gordinha, mas ela não queria pensar sobre aquilo. Ele chegou perto e ficaram conversando sobre a problemática família deles.

- Mas hoje está muito calmo né? Uma hora dessas em outro aniversario nossas mães já tinham saído na mão a um bom tempo! – Disse ela.

- Ah, mas hoje é aniversario da nossa vó! – disse rindo - Tia Zilda disse que queria respeito no aniversario da velha. E aí todos prometeram nada de barracos!

Foi a coisa mais decepcionante que ela já ouviu naquele dia. E ainda restava muito para acaba-lo, nem o bolo fora cortado ainda.

E bastou pensar nisso que alguém apareceu na janela 3 andares a cima gritando que iam cortar o bolo. Meio desanimada ela foi subindo a escada com o Júlio do lado, e antes de chegar perto da porta já estava aquela confusão musical que sempre acontece.

Cantar parabéns em inglês em terras brasileiras nunca fez muito sentido pra ela. Mas parece ser uma tradição de família cantar em cima do “parabéns pra você” o “happy birthday”. Nunca teve graça.

Pensou nos meninos tomando vinho lá em baixo, e resolveu aproveitar que todos estavam na sala homenageando a Vovó rabugenta, para ir até a cozinha e roubar mais alguma coisa de comer, e quem sabe um copo de vinho também.

Olhou para trás e encheu um copo de plástico com um vinho vermelho sangue, e pegou mais algumas especiarias fritas pela tia... Quando de repente todo mundo se calou na sala. Ela não sabia o que era, mas um leve sorriso cresceu em seu rosto, pois sabia que quando a sala fica silenciosa demais, algo de ruim está para acontecer.

Foi correndo pra sala, e perguntou para o Júlio que estava chocado encostado no batente da porta:

- A vovó pirou!

Dorothy olhou para a sala e lá estava a tia Zilda sem olhar pra trás dizendo e repetindo:

- Mamãe! - gritou mortificada a dona da casa. - Que é isso, mamãe! Mamãe, que é isso! - Não parava de falar isso em reprovação - A senhora nunca fez isso! – E essa ultima frase parece que foi dita mais alto do que as outras para que todos ouvissem.

Dorothy olhou ao redor, e todos estavam chocados. Tia Zilda já sem forças admitiu:

- Ultimamente ela deu pra cuspir...

Aquela dó que ela já sentia pela sua tia cresceu mais naquele momento. Uma mulher que a idade já lhe tirou o vigor e a beleza e que sempre teve que ficar presa em uma casa para cuidar de uma mulher rude e velha, que nem lhe dá atenção, e agora fica cuspindo pela casa fazendo-a limpar.

Ela entendia a vergonha que a tia estava passando. Aquele ato da vó era quase como se tivesse jogado todo o trabalho da tia pelo ralo. E todos ali na sala estavam parados, estagnados pensando que seria melhor ela ficar num asilo.

Dorothy deu um passo a diante para abraçar a tia Zilda ali do meio, e dar um abraço nela, mas seu ato é interrompido pelo resmungo de sua vó.

- Me dá um copo de vinho.

O susto subiu pela espinha num suor frio. Ficou se perguntando como sabia que ela estava bebendo vinho?

- Vovozinha, não vai lhe fazer mal? - Tentando ser mais fofa e assustada o possível para que uma possível bronca sobre o fato dela ter 13 anos e estar bebendo vinho não seja lembrado a diante.

- Que vovozinha que nada! – gritou a vó, e isso já era algo interessante porque não fazia ideia de que a velha ainda tinha fôlego para gritar desse jeito. Dorothy também percebeu que todos se assustaram por isso também. - Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! Me dá um copo de vinho, Dorothy! - ordenou.

Dorothy sempre que não sabe o que fazer, olha para seu pai, e assim o fez. Todos estavam tão assustados quanto ela. Então viu que a única saída era dar seu copo para a vó.

Após fazer isso, saiu por onde entrou e lá estava seu primo Júlio com um leve sorriso no rosto:

- Parece que a tia Zilda se esqueceu de avisar a vó para se comportar também!

Dorothy quis dar risada, mas manteve a cara de passiva, pois mais a diante estava vindo seu pai com uma cara de nervoso. Júlio também viu e saiu de perto para não escutar a bronca também.

- Você estava bebendo vinho? Você é uma criança!

Dorothy ficou no carro de castigo até o final da festa. Mas ela não estava triste. A festa foi melhor do que ela esperava. Melhor do que ver mulheres de 40 anos se atacarem sem motivo nenhum. Ver uma velha amarga descontar toda a raiva de uma vida não vivida em seus descendestes. “Fazia muito sentido”, pensava Dorothy “minha vó deve olhar pra gente como sendo o fim do mundo, afinal de contas, somos nós que estamos levando o legado da família para o futuro, e somos uma droga de família”. Deu uma risada gostosa.

Ficou ali no carro vendo o movimento. Depois de umas horas os mesmos meninos que estavam bebendo vinho mais cedo, voltaram por mesmo lugar, mas dessa vez com um maço de cigarro inteiro nas mãos. Dorothy não precisou fazer nada, porque o lindo do pai deles chegou bem na hora que eles pegaram o isqueiro.

Agora era esperar ano que vem para ver quem seria a próxima vitima da vovozinha.

3 de junho de 2013

Re-

Recomeçar significa começar de novo. Uma nova chance pra algo que já aconteceu. Outra vez.

Nos últimos dias, essa palavra foi muito forte pra mim. Achamos que a resposta para algo está no passado, e tentamos resgatar. Tentamos recomeçar, mas não. A resposta nunca é essa. O novo sempre é melhor. O novo nunca é desbotado.

Para re-tentar algo já acabado, devemos nos perguntar: porque acabou da primeira vez? Acredito no aprendizado e no amadurecimento, mas o que acabou não pode voltar. Por orgulho, e por lógica.

Então nasce outra questão: se teve motivo para acabar da primeira vez, que motivos têm para tentar mais uma vez?

Sem duvida essa resposta estava na esperança deixada no passado, para que seja bom de novo, mas o mal se sobressaiu para que a melhor escolha fosse o fim.

Nos últimos dias pensei em recomeçar, mas acho melhor tentar começar algo novo, de novo.

25 de maio de 2013

Sobre Destino - Um Caminho

Desculpe-me quem acredita em coincidências, mas tais inocências não cabem mais nesse mundo.

Seja adepto do criacionismo ou do evolucionismo, não estamos aqui por um acaso, e sim, por inúmeros processos longos e chatos de serem entendidos. Logo, se não nascemos sem querer, me recuso a acreditar que algumas coisas acontecem sem querer.

Destino é chamado de vários nomes, seja ele deus, sincronicidade, caminho e outra qualquer alusão. Tudo isso significa uma coisa só: as coisas acontecem porque tem que acontecer. E você sempre caminhará pr'aquilo.

Não é esoterismo nem religião, são fatos concretos e dispostos linearmente mostrando causa e efeito. Newton.

O destino só é chamado quando coisas boas estão caminhando por caminhos saudáveis. Mas, a falta de sorte e empecilhos no caminho também não faz parte do aprendizado deste caminho?

Afinal, porque caímos?

Para aprender a nos levantar mais fortes, logo, saiba que sofremos para que não soframos mais.

"O que está morto não pode morrer, mas volta a se erguer mais duro e mais forte" - Oração comum do deus afogado, Casa Greyjoy

O que faz muitas pessoas negarem o fato do destino ser uma força diretamente aplicante em nossas vidas, é achar que quem tem as rédeas de suas vidas são elas mesmas. Mas o principal do desapego é saber que nunca existiram rédeas e que você é uma peça na linha de montagem, e que essa linha tem apenas um começo e um final.

E ainda digo para os desobedientes: viver na ilusão é muito pior por um único e claro motivo: não existe liberdade.

E para constar isso, basta olhar para a finidade de escolhas: com ou sem queijo? Tênis azul ou vermelho? Loira ou morena?

Estar livre é saber que se está preso.

Pois então aproveite as felizes coincidências do destino, e saiba e acredite que você só existe para um único motivo, e assim que completado seu corpo e alma são completamente descartáveis.